Pensar e sentir é o que nos torna humanos

“É com o coração que se vê corretamente, o essencial é invisível aos olhos.”

Antoine de Saint-Exupéry, “O principezinho

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Lembram-se de quando querem dizer uma determinada “coisa” que está mesmo na ponta da vossa língua, mas não sabem o que é? Imaginem o que é terem um determinado sentimento ou emoção no lugar dessa “coisa” e não sabem qual o nome que lhe devem atribuir.

Agora somem à situação descrita anteriormente, o facto de não saberem quais as palavras-chave associadas a esses mesmos sentimentos e emoções… Torna-se quase impossível transmitir ou explicar ao outro o que estamos a sentir. Além disso, se pensarmos profundamente nem sequer precisamos de palavras, porque a nossa expressão facial e linguagem corporal comunicam por nós.

Coloca-se outro ponto importante, que consiste em saber identificar e reconhecer as emoções através da linguagem corporal e leitura de expressões faciais… De um modo bastante simples expliquei-vos o que é a Literacia Emocional.

A Literacia Emocional consiste na capacidade de identificar e reconhecer emoções no outro ou em si mesmo. As emoções desempenham um papel essencial no equilíbrio e na saúde de todos nós. A Literacia permite aos indivíduos desenvolver uma capacidade de reflexão, crítica e empatia no que diz respeito ao mundo interno de cada um, assim como a nossa aproximação do que o outro pode ser, estar e sentir.

Mas qual é o papel da Literacia Emocional nas escolas?

Primeiros dias de aulas: mochilas, canetas, cadernos, livros, mentes sedentas por aprender, níveis de motivação díspares, medos, etc. Em cada novo ano letivo estão presentes estes elementos e outros que fazem parte do ensino escolar.

Do currículo fazem parte disciplinas como a Matemática, o Português e Estudo do Meio ao longo do Ensino Básico. A escola é o principal agente responsável pelo desenvolvimento do intelecto, seja através do raciocinio lógico-matemático, compreensão, lógica e organização visual e espacial (algumas categorias presentes no Quociente de Inteligência).

O ensino escolar cultiva a inteligência, o sucesso escolar, o alcance das metas curriculares (que cada vez mais são exigentes, tanto para os alunos como para os professores), entre outros aspetos, esquecendo-se, muitas vezes, de ensinar ou transmitir às crianças outra tipologia de inteligência (que se complementam) que é tão ou mais importante, a qual é denominada de Inteligência Emocional. Nas escolas a inteligência não se deve limitar apenas à estimulação e desenvolvimento do intelecto e ao dominio cognitivo, mas deve desenvolver também as competências socio-emocionais de cada indivíduo.

As emoções andam sempre de mãos dadas com cada um de nós, aprendem e ensinam nas escolas, passam serões em família e passeiam na comunidade. A aventura das emoções e dos seus contextos inerentes apenas começou. Sejam bem-vindos a bordo.

Joana Fialho, Psicóloga Clínica e colaboradora na Sociedade do Bem

Publicado originalmente no Tribuna Alentejo

Imagem www.zerochan.net

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A história do João

“A nossa função não é ensinar as crianças a enfrentar um mundo cruel e desumano.

A nossa função é criar crianças que vão fazer do mundo um lugar um pouco menos cruel e desumano.”

L. R. Knost

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O que é a Sociedade do Bem?

O que fazemos nós para fazer cumprir a missão de desenvolvermos a empatia, o altruísmo e a positividade nas crianças, através do exemplo?

Escolhi explicar-vos hoje este conceito através da história do João. Não é a primeira vez que a conto porque sinto que ilustra de forma clara o problema de défice de literacia emocional que a Sociedade do Bem previne nas crianças:

O pequeno João tinha 4 anos quando entrou para o pré-escolar. A educadora e a auxiliar brincavam muito com ele, envolviam-no nas atividades de grupo e tentavam sempre despertar no João o gosto por aprender, por partilhar… Sempre que o viam triste, reconfortavam-no e sempre que se zangava elas tentavam acalmá-lo… Todos os dias os pais procuravam saber como tinha corrido o dia ao seu filho: Será que ele se dá bem com as outras crianças? Interage com os outros de uma forma positiva? E os outros brincam com ele?

O João tem agora 6 anos e já vai para o 1º ano. Agora é que é a sério, é o que toda a gente lhe diz. A professora já não é a mesma e não há nenhuma auxiliar na sala de aula. A professora tem a missão de ensinar 25 crianças da idade do João a ler, a escrever, a contar… Português. Matemática. Estudo do Meio… Sem que notem, os pais vão começar a fazer perguntas diferentes. De “Será que o meu filho é um bom menino” irão passar a querer saber “Será que o meu filho é um bom aluno? Será que vai ter sucesso um dia quando crescer?”

E é a partir daqui que o sucesso passa a ser medido pelos resultados escolares, já que um dia, quando o pequeno João for um homem, o sucesso será medido pela profissão que alcançar, pelos títulos que juntar e não pelo sentido e significado da vida.

Querem saber quem é o João?

Toda a gente o conhece. O João é aquela criança que vive na nossa casa ou que vemos crescer, mais de perto ou mais de longe… É a criança que ainda não tem ferramentas para lidar com emoções como o medo ou a raiva… que não tem na escola tempo ou espaço para poder confiar, refletir, agir, para se colocar no lugar do outro, para ver de diferentes perspetivas…

Ao João é-lhe dito que as emoções devem ficar em casa, na esfera privada. Que chorar é coisa de bebés e que devemos esconder aquilo que sentimos. É por isso que às vezes fica agressivo. Porque essa é a única forma que conhece para lidar com o que sente quando fica zangado. Aprender a sentir empatia é como aprender a tocar um instrumento. Tem de se praticar. Não basta dizer às crianças que elas não devem fazer aos outros aquilo que não gostariam que lhes fizessem a elas.

Na Sociedade do Bem desenhamos programas que combatem a iliteracia emocional das crianças, partindo-se da criação de um ambiente de confiança, para que se possa aprofundar a construção de cenários, jogos e dinâmicas em que todas as crianças se sintam à vontade para participar. A reflexão e o desafio à ação são uma constante.

Acreditamos no poder transformador deste projeto não só na vida do João mas como na vida de todas as crianças.

Os planos, os projetos e os objetivos traçados por quem está do lado de dentro deste projeto – carinhosamente batizado com o nome Sociedade do Bem -, não são definidos com a aproximação da passagem de ano nem se baseiam em desejos (embora eles existam e são tantos!). O início de uma nova etapa da Sociedade do Bem é marcado pelo começo de mais um ano letivo, altura em que tantas crianças regressam à escola e outras, lá vão pela primeira vez, com os olhos a brilhar na ânsia de descobrirem agora um novo mundo!

É muito antes de o ano letivo começar que lançamos mãos à obra: Em que turmas iremos implementar os programas? Quem iremos convidar para ser heartbuilders (ou mentor de cada programa)? E os temas quais serão? E que atividades vamos incluir em cada programa? E no meio de tantas ideias que surgem sentimos entusiasmo, otimismo e confiança no poder que a Sociedade do Bem tem para influenciar de uma forma positiva a vida destas crianças. E não só no ano letivo em que se implementa o programa de desenvolvimento emocional e social, mas para o resto das suas vidas.

Começa agora um novo ano letivo.

Feliz 2015/16 para todos aqueles que fazem da educação a sua casa!

Susana Pedro, professora e fundadora da Sociedade do Bem

Publicado originalmente no Tribuna Alentejo

Imagem www.huffingtonpost.com