A ARTE DE BRINCAR

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No passado dia 10 de outubro celebrou-se uma data especial: o Dia Mundial da Saúde Mental, celebração anual da educação, consciencialização e defesa da saúde mental. Nos dias que decorrem cada vez mais observamos crianças apáticas, desligadas do entusiamo do começo das suas vidas, menos exploradoras e aventureiras.

Em Portugal, denota-se um aumento de crianças e adolescentes com sintomatologia depressiva, perturbações ao nível da hiperatividade, do défice de atenção, do comportamento desafiante ou desviante. Na origem desta problemática estão fatores como a educação, as políticas de saúde, pais menos envolvidos na vida educativa e pessoal das crianças, entre outros fatores relevantes.

Gostava de vos contar uma história baseada um pouco nesta temática. Espero que gostem e que retirem uma mensagem dela:

Um assobio soava pela rua. Está na hora, pensava, acompanhada de um sorriso. Agarrava na minha mala repleta de brinquedos (berlindes, cromos, cadernetas, cartões feitos por nós das personagens favoritas, lego, playmobil, barbies e outras traquitanas) e saia porta a fora a correr. “Joana, não saias da rua, quero estar a ver-vos!”, dizia a minha mãe na varanda.

De frente para a minha casa brincava com as minhas amigas de infância. Eramos seis raparigas e cada uma com uma personalidade mais diferente da outra. Ovque tínhamos em comum? A amizade que nutríamos umas pelas outras, muitos sonhos e muita imaginação.

O que fazíamos antes da Era Tecnológica?

Inventávamos coisas para nos divertimos. O quê (perguntam vocês)? Fazíamos coreografias dos Backstreet Boys, cada uma escolhia quem queria ser… uma Spice Girls ou uma das Navegante da Lua, entre outras brincadeiras que nos enriqueciam.

Escrevíamos cartas que colocávamos escondidas nos quintais umas das outras. Uma vez uma de nós quase ficou com uma carta ilegível porque um bichinho decidiu almoçar as nossas palavras. Enfim, era a nossa infância naqueles dias… interativa, dinâmica, criativa, improvisada… mas repleta de vida.

Não vos vou mentir. Também gosto de jogos eletrónicos. Quando tive a minha única consola, a Sega Mega Drive, também era capaz de ficar horas infinitas a jogar Super Mário ou Sonic: The hedgehog. Mas a diferença reside na felicidade verdadeira que era estar com amigos e amigas a brincar e a rir.

Não vos quero parecer velha ou antiquada mas gostava de vos dar a conhecer o meu ponto de vista sobre os jogos informáticos, de consola ou os que encontramos em dispositivos móveis, que são bons e úteis para as crianças, sobretudo para o aumento da capacidade de resolução de problemas e no desenvolvimento do raciocínio matemático, por exemplo.

Contudo, pode atrapalhar o processo imagético das crianças, ou seja, diminui a capacidade imaginativa das crianças. É claro que existem imensas crianças que jogam e que são muito criativas e imaginativas, sem qualquer problema. A questão é que existem muitas crianças que o desenvolvimento da imaginação seria uma ferramenta muito importante a qual só é adquirida através do brincar.

É claro que não podemos falar em brincar e imaginação sem nos lembrarmos de bandas desenhadas como o Calvin and Hobbes ou o Charlie Brown. Recordo com carinho as palavras de um professor universitário que marcou o meu percurso académico, o Emílio Salgueiro : “Se querem conhecer o verdadeiro mundo da criança têm de ler as bandas desenhadas do Calvin and Hobbes ou do Charlie Brown”.

Afinal de contas… quem não teve um amigo imaginário? Quem não teve o seu peluche favorito e que o levava para todo o lado? Quem não tinha medo do desconhecido? Do “papão” e do escuro? Quem não fez de conta de que era a sua personagem de desenho animado favorito? Quem não achava o mundo dos adultos uma verdadeira seca? Quem não pulava de um sofá para o outro com entusiamo e medo ao mesmo tempo ao imaginar que tinha lava no chão?

Brincar não é uma atividade extracurricular ou que se deva praticar apenas ao fim de semana. Imagine o que seria a sua infância sem brincar. Sabia que o brincar tem uma forte influência no Desenvolvimento Global da Criança?

Brincar promove o otimismo, a curiosidade, estimula a espontaneidade e reforça o sistema imunitário. Além disso, brincar proporciona ao ser humano adquirir competências sociais, uma vez que suscita a integração com os outros e com o meio social, promove e fortalece os relacionamentos , ajuda na construção da personalidade, favorece a criação de um sentido de humor saudável, aceitação de regras e o prazer de construir histórias em grupo. Por outras palavras, brincar permite à criança vivenciar, interagir, recriar situações do quotidiano, imitar, imaginar, exprimir-se, aprender, a descobrir-se a si própria, apreender a realidade, etc.

Se pensarmos neste tema, nós, adultos, percebemos que o brincar consiste, igualmente, numa atividade que devíamos promover mais entre nós. Porquê? Não é suposto sermos sérios e metódicos? Sim, mas as atividades de lazer e descontração são muito importantes e não devem ser negligenciadas. Quando estamos bem dispostos e “brincamos” ativamos o nosso pensamento e memória, somos mais criativos e sensíveis ao contacto com o outro e desenvolvemos mais sentimentos de solidariedade e altruísmo.

Lembre-se: Brincar é investir no seu bem-estar e na sua saúde mental. As crianças que brincam alegremente no seu dia-a-dia serão mais tarde adultos saudáveis e felizes. Promova a brincadeira.

Joana Fialho, Psicóloga Clínica e colaboradora na Sociedade do Bem

Publicado originalmente em Tribuna Alentejo

Imagem: http://www.multigfx.com

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