AS CRIANÇAS TÊM VOZ

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Ainda antes de conseguirem traduzir por palavras as suas emoções, as crianças começam a comunicar e a interagir com o meio envolvente. Com a aquisição e o domínio da linguagem, a forma como comunicam torna-se cada vez mais elaborada e torna-se mais fácil para elas exprimirem o que sentem e pensam – a forma como se percecionam a si e ao mundo -, surpreendendo-nos não raras vezes com as suas observações e considerações. Os temas podem ir desde o lanche que levam para a escola, passando pelos currículos escolares, até à apresentação de soluções para promover um ambiente de paz para toda a Humanidade.

As crianças têm voz.

Desde cedo devemos incentivá-las a não recear ter uma opinião e uma palavra a dizer sobre o mundo que as rodeia. Não devemos educar as crianças pensando somente na pessoa adulta que um dia elas serão. É importante mostrar-lhes que a partilha da sua visão em relação ao (seu) universo é importante e esse caminho deverá ter início ainda antes de as crianças começarem a desenvolver um sentimento de pertença em relação à família, depois à escola e à comunidade.

Se um dos pressupostos dos programas da Sociedade do Bem é dar voz às crianças, no programa “Pela Música” queremos projetar ao máximo essa voz. O ponto de partida foi a Escola e as emoções que as diferentes experiências que estão associadas a este espaço podem criar nelas. Perguntámos às crianças o que desperta nelas diferentes emoções, como a alegria, a raiva ou a vergonha e percebemos que as crianças da turma em que implementámos o programa têm em comum o facto de se sentirem felizes quando estão com os amigos, quando brincam, quando aprendem coisas novas ou quando têm Estudo do Meio… Por outro lado, sentem-se tristes quando não têm ninguém para brincar, quando se sentem humilhadas ou quando têm más notas, zangadas quando lhes batem ou mexem nas suas coisas sem pedir, etc.

Do encontro do que têm em comum, da partilha da visão do que é mais importante para construir uma Escola com um ambiente mais positivo, partimos para a criação de uma música com que todas as crianças se identificassem e cuja letra refletisse não só a forma como se sentem na Escola, mas sobretudo a forma como gostariam de se sentir. Desta forma, cantar a música criada em grupo, permitiu aprofundar laços de amizade e de cumplicidade entre estas crianças, reunidas em torno de uma espécie de hino no qual se reveem e sentem orgulho.

As vozes das crianças, unidas em sintonia para dar sentido às palavras contidas na música, contribui para o seu desenvolvimento pessoal e social. A música, para além de reforçar os laços que unem estas crianças, cria espaço para a compreensão das situações que todas elas, em maior ou em menor grau, vivem no dia a dia.

A nossa voz é um instrumento poderoso.

Se estiver aliada à linguagem universal que é a música, maior será o seu poder e alcance para transformar o mundo. Deixemos as crianças terem a sua própria voz e transmitir as suas ideias para caminharmos para a construção de um mundo melhor. Temos muito a aprender com elas.

Vídeo do 1.º Ensaio da Canção da Turma: “Espalhar Alegria”

Agradecimento especial ao Mentor/Heartbuilder Manuel Guerra

https://www.facebook.com/sociedadedobem.org/videos/516447081864857/

Susana Pedro, professora e fundadora da Sociedade do Bem

Publicado originalmente em Tribuna Alentejo

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TPC – Trabalhos para (des)complicar

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Os Trabalhos Para Casa (TPC) são, para muitos pais, a maior e mais complicada tarefa de fazer com os filhos. Não pretendo, de todo, defender ou denegrir a importância dos TPC, não estou a escrever com esse propósito, até porque, enquanto mãe e professora penso conseguir visualizar os dois lados.

Se por um lado, os TPC, com conta peso e medida, podem ser uma grande mais-valia para os alunos – uma forma de complementar o seu estudo, uma forma de consolidar as competências e aprendizagens adquiridas em contexto sala de aula, uma forma de os ajudar e ensinar a estudar, uma maneira de os responsabilizar e até mesmo um meio de ligação entre casa (família) e escola. Por outro lado, quando em excesso poderão ser prejudiciais.

As crianças passam o dia todo na escola, têm um horário letivo bastante preenchido. São muitos os que depois da escola ainda têm as suas atividades de lazer, na minha opinião também bastante importantes, como o futebol, natação, ballet, entre outras. Quando chegam a casa já é ao final do dia, depois conciliar banhos, jantar e a realização dos TPC, pode tornar-se uma verdadeira dor de cabeça para todos.

Quando vão fazer os TPC já os fazem sem qualquer vontade, sem qualquer atenção, concentração ou motivação, o que faz com que estes se transformem num pesadelo e causa de muitas discussões familiares. Já para não falar da questão de muitos pais não terem habilitações académicas e conhecimentos para ajudar os filhos. Aí o drama é ainda maior. Chega a tornar-se frustrante para muitos pais não terem a capacidade de ajudar os filhos e para os filhos é quase incompreensível que os pais não os consigam ajudar nesta tarefa.

É nesse sentido que pretendo ajudar, dando algumas dicas para que a hora TPC seja um momento tranquilo para pais e filhos:

– Comecemos pelo espaço onde são realizados os TPC: Deve ser um espaço da casa com tranquilidade em que o seu filho não seja incomodado, um espaço com luz natural ou boa iluminação e deverá ser sempre o mesmo, para que a criança se comece a habituar sempre a este local;

– A criança deve estar confortável: Ter uma mesa espaçosa e uma cadeira adequada ao seu tamanho;

– Ter fácil acesso ao material que necessita para a realização dos TPC (livros, lápis, canetas, borracha, entre outros) evitando estar constantemente a levantar-se, para não se dispersar;

– Neste local não deve existir televisão, rádio ou computador (ou pelo menos não estarem ligados), para que o seu filho não se distraia;

– Tente que a criança realize os TPC sempre à mesma hora, isso facilitará os hábitos de estudo e a gestão de tempo;

– Não permita que o seu filho inicie os TPC assim chega da escola. Faça uma pausa, um pequeno lanche, deixe que a criança descanse um pouco;

– Deve estar por perto, mas tente não interferir na realização dos TPC do seu filho. Espere que seja ele a pedir a sua ajuda, poderá ser uma tarefa mais simples em que o seu filho não necessite de ajuda ou, se for uma tarefa mais complicada, incentive-o primeiro a tentar resolver sozinho e, só se ele não for capaz, deverá ajudá-lo;

– No caso de ter mais de um filho em idade escolar, não os coloque ao mesmo tempo, ou pelo menos, no mesmo espaço a realizar os TPC, pois haverá sempre tendência a conversas paralelas;

– Quando existem mais filhos e só um está na escola, não deixe que o mais novo se aperceba que o irmão está a fazer os TPC, ou então, arranje maneira de o mais novo estar entretido para não incomodar o mais velho;

– Não obrigue o seu filho a estar muito tempo a realizar os TPC. Não é, de todo produtivo. Se forem muitos ou uma tarefa muito demorada, faça uma pequena pausa, ele descansa e quando voltar irá estar mais concentrado.

São apenas dicas, que na teoria todas são viáveis, mas sei o quanto muitas vezes é difícil colocá-las em prática. Cada caso é um caso, cada família é uma família e cada criança é única. Acima de tudo tente sempre que a realização dos TPC não interfira na relação com o seu filho.

Vanessa Chinelo, Professora e colaboradora na Sociedade do Bem

 Publicado originalmente em Tribuna Alentejo

Imagem: https://criancasatortoeadireitos.files.wordpress.com/2015/08/pixbay.jpg

O mundo precisa de abraçar mais Julias

“O sol nasceu… Como está lindo o céu… Lá vou eu! Vem tu daí também… Aprender como se vai…. até a Rua Sésamo. Vem brincar… Traz um amigo teu… E ao chegar tu vais poder também…Ensinar como se vai até a Rua Sésamo….Até a Rua Sésamo”*

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Quantos de nós não gostávamos de ver um desenho animado ou um programa infantil que era um bem mais valioso para a nossa educação? Conhece a música? É a Rua Sésamo. Muitas crianças, e até mesmo adultos, como pais e/ou agentes educativos cresceram com as suas lições em tom de brincadeira, com imenso sentido de humor e partilha de histórias.

Este programa infantil que tem como objetivo entreter as crianças de forma pedagógica, através de várias apresentações lúdicas e alusivas à aprendizagem escolar como o alfabeto, os números, as cores, as formas e abordagem de temas variados. Além disso, estas aprendizagens também foram enriquecidas com emoções partilhadas entre as personagens, brincadeiras, o diálogo, hábitos de higiene, hábitos alimentares adequados, entre outras atividades ligadas ao quotidiano.

Ao longo deste programa que enriqueceu a infância de muita gente (inclusive a minha) personagens icónicas e marcantes como o Poupas, o Sapo Cocas, o Monstro das Bolachas, o Egas, o Becas, o Ferrão, o Gualter, o Conde de Contar, entre outras entraram nas nossas casas e bem cedo ensinaram-nos como aprender pode ser divertido e importante para a nossa vida.

Recentemente, a Rua Sésamo atualizou-se e para além das aprendizagens pedagógicas junto dos mais novos, implementou uma nova modalidade dos seus episódios denominado de Sesame Workshop: See Amazing in All Children (Workshop da Sésamo: Ver o fantástico em todas as crianças).

A See Amazing in All Children tem como objetivo mostrar “o que todas as crianças têm em comum e não as suas diferenças. Crianças com autismo partilham a alegria pelas brincadeiras, por terem amigos e fazerem parte de um grupo” (Jeanette Betancourt, Vice-presidente da Sesame Workshop). Com o intuito de alertar, sensibilizar e informar o público mais jovem e as famílias, a Rua Sésamo aumentou a sua família e criou uma nova personagem chamada Julia.

A Julia é uma menina alegre, com olhos verdes e cabelo laranja. O que é que a Julia tem de diferente para aparecer no programa? É uma criança autista e como qualquer criança gosta de brincar, ter amigos e desenvolver as suas relações interpessoais. O papel que a Julia desempenha é essencial para a informação, sensibilização sobre o autismo e sublinhar um lema: “Todas as crianças são únicas, mesmo nas suas diferenças”.

Assim, as crianças e os adultos podem entender que a criança autista apresenta-se, por vezes, irrequieta, distante perante acontecimentos, grita com facilidade, tem sensibilidade auditiva, tem um menor envolvimento com o que as rodeia, tem dificuldade em expressar as suas emoções ou a comunicar, entre outras caraterísticas inerentes ao autismo.

Este projeto valoriza a diferença como o fator único de cada criança. Jeanette Betancourt salienta que “as crianças com autismo são 5 vezes mais propensas a serem vítimas de bullying. Com uma em cada 68 crianças com autismo, é caso para dizer que é muito bullying”.

O bullying acontece muitas vezes nestes casos (infelizmente) devido ao preconceito, estigma, estereótipos, falta de sessões de sensibilização nos contextos educativos, etc. Na maioria das vezes as crianças não interagem facilmente com crianças autistas pela falta de informação, compreensão do outro e desconhecimento de como lidar com as emoções e comportamentos do outro, sobretudo quando uma criança autista tem um descontrolo emocional.

Pensem comigo: se o bullying geralmente, marca uma criança… imaginem o quão difícil irá ser a socialização das crianças com perturbação quando são vítimas de bullying. As crianças que são consideradas como diferentes têm uma maior probabilidade de serem gozadas ou ostracizadas pelos colegas.

Devido a este facto, na minha opinião, torna-se fundamental a implementação da educação inclusiva, pois só assim conseguirmos transmitir e ensinar às crianças que ser diferente não é mau, nem se é menos ou mais, simplesmente a diferença faz parte de nós. Porquê? Porque todos nós somos iguais, na medida em que somos todos seres humanos, mas cada um é uma pessoa única, com as suas caraterísticas, qualidade e defeitos.

A Rua Sésamo quis com este projeto transmitir aos mais novos isso mesmo, ou seja, apesar da Julia ser autista, é criança e, como qualquer criança, gosta de brincar, socializar e aprender, mesmo com as suas dificuldades. Através deste prisma estamos a criar crianças mais conscientes e mais empáticas na relação com o outro.

Bem-vinda, Julia.

Joana Fialho, Psicóloga Clínica e colaboradora na Sociedade do Bem

*Letra da música de abertura portuguesa da Rua Sésamo

Publicado originalmente em Tribuna Alentejo

Imagem: www.slantnews.com