O mundo precisa de abraçar mais Julias

“O sol nasceu… Como está lindo o céu… Lá vou eu! Vem tu daí também… Aprender como se vai…. até a Rua Sésamo. Vem brincar… Traz um amigo teu… E ao chegar tu vais poder também…Ensinar como se vai até a Rua Sésamo….Até a Rua Sésamo”*

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Quantos de nós não gostávamos de ver um desenho animado ou um programa infantil que era um bem mais valioso para a nossa educação? Conhece a música? É a Rua Sésamo. Muitas crianças, e até mesmo adultos, como pais e/ou agentes educativos cresceram com as suas lições em tom de brincadeira, com imenso sentido de humor e partilha de histórias.

Este programa infantil que tem como objetivo entreter as crianças de forma pedagógica, através de várias apresentações lúdicas e alusivas à aprendizagem escolar como o alfabeto, os números, as cores, as formas e abordagem de temas variados. Além disso, estas aprendizagens também foram enriquecidas com emoções partilhadas entre as personagens, brincadeiras, o diálogo, hábitos de higiene, hábitos alimentares adequados, entre outras atividades ligadas ao quotidiano.

Ao longo deste programa que enriqueceu a infância de muita gente (inclusive a minha) personagens icónicas e marcantes como o Poupas, o Sapo Cocas, o Monstro das Bolachas, o Egas, o Becas, o Ferrão, o Gualter, o Conde de Contar, entre outras entraram nas nossas casas e bem cedo ensinaram-nos como aprender pode ser divertido e importante para a nossa vida.

Recentemente, a Rua Sésamo atualizou-se e para além das aprendizagens pedagógicas junto dos mais novos, implementou uma nova modalidade dos seus episódios denominado de Sesame Workshop: See Amazing in All Children (Workshop da Sésamo: Ver o fantástico em todas as crianças).

A See Amazing in All Children tem como objetivo mostrar “o que todas as crianças têm em comum e não as suas diferenças. Crianças com autismo partilham a alegria pelas brincadeiras, por terem amigos e fazerem parte de um grupo” (Jeanette Betancourt, Vice-presidente da Sesame Workshop). Com o intuito de alertar, sensibilizar e informar o público mais jovem e as famílias, a Rua Sésamo aumentou a sua família e criou uma nova personagem chamada Julia.

A Julia é uma menina alegre, com olhos verdes e cabelo laranja. O que é que a Julia tem de diferente para aparecer no programa? É uma criança autista e como qualquer criança gosta de brincar, ter amigos e desenvolver as suas relações interpessoais. O papel que a Julia desempenha é essencial para a informação, sensibilização sobre o autismo e sublinhar um lema: “Todas as crianças são únicas, mesmo nas suas diferenças”.

Assim, as crianças e os adultos podem entender que a criança autista apresenta-se, por vezes, irrequieta, distante perante acontecimentos, grita com facilidade, tem sensibilidade auditiva, tem um menor envolvimento com o que as rodeia, tem dificuldade em expressar as suas emoções ou a comunicar, entre outras caraterísticas inerentes ao autismo.

Este projeto valoriza a diferença como o fator único de cada criança. Jeanette Betancourt salienta que “as crianças com autismo são 5 vezes mais propensas a serem vítimas de bullying. Com uma em cada 68 crianças com autismo, é caso para dizer que é muito bullying”.

O bullying acontece muitas vezes nestes casos (infelizmente) devido ao preconceito, estigma, estereótipos, falta de sessões de sensibilização nos contextos educativos, etc. Na maioria das vezes as crianças não interagem facilmente com crianças autistas pela falta de informação, compreensão do outro e desconhecimento de como lidar com as emoções e comportamentos do outro, sobretudo quando uma criança autista tem um descontrolo emocional.

Pensem comigo: se o bullying geralmente, marca uma criança… imaginem o quão difícil irá ser a socialização das crianças com perturbação quando são vítimas de bullying. As crianças que são consideradas como diferentes têm uma maior probabilidade de serem gozadas ou ostracizadas pelos colegas.

Devido a este facto, na minha opinião, torna-se fundamental a implementação da educação inclusiva, pois só assim conseguirmos transmitir e ensinar às crianças que ser diferente não é mau, nem se é menos ou mais, simplesmente a diferença faz parte de nós. Porquê? Porque todos nós somos iguais, na medida em que somos todos seres humanos, mas cada um é uma pessoa única, com as suas caraterísticas, qualidade e defeitos.

A Rua Sésamo quis com este projeto transmitir aos mais novos isso mesmo, ou seja, apesar da Julia ser autista, é criança e, como qualquer criança, gosta de brincar, socializar e aprender, mesmo com as suas dificuldades. Através deste prisma estamos a criar crianças mais conscientes e mais empáticas na relação com o outro.

Bem-vinda, Julia.

Joana Fialho, Psicóloga Clínica e colaboradora na Sociedade do Bem

*Letra da música de abertura portuguesa da Rua Sésamo

Publicado originalmente em Tribuna Alentejo

Imagem: www.slantnews.com

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