Ano novo, escola nova!

* ou resoluções de ano novo que todos os professores deviam fazer

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Vem aí a passagem de ano, época de fazer resoluções: perder peso ou adotar um estilo de vida mais saudável são as mais comuns, mas… e um professor? O que decide um professor alterar ou melhorar no ano que entra para que este se transforme no ano da sua vida, para além das resoluções mais comuns que fazem parte da lista? Que objetivos poderá ele definir para si e, consequentemente para a sua sala de aula, para criar um ambiente mais positivo para todos?

Este artigo reúne algumas sugestões de resoluções de ano novo que poderão inspirar professores e fazê-los voltar a sentir a mesma energia com que contagiavam os colegas durante o seu ano de estágio ou no primeiro ano em que deram aulas. Afinal, ainda vamos a caminho do 2º período e está na altura de recarregar as baterias porque… ano novo, escola nova!

  1. Ser mais autêntico

Todos nós já tivemos, a certa altura da vida, um professor que nunca esquecemos. Um professor que, mais que ver os seus alunos, conseguia ver pessoas, que conseguia manter um relacionamento genuíno com sua turma e por isso, as suas aulas eram fantásticas! Este tipo de relacionamento era construído ao longo do tempo e geralmente a disciplina a cargo deste professor passava a ser a disciplina favorita dos seus alunos naquele ano e tanto fazia se era Matemática, História ou Francês. Um professor autêntico tem em si o poder de marcar a vida dos alunos para sempre e de se tornar inesquecível.

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2. Ser positivo

Toques de entrada, toques de saída, livros de ponto, pautas, fichas corrigidas e outras tantas por corrigir…Quem escolhe ser professor sabe que há profissões mais tranquilas mas há que continuar a correr… e por gosto! Para isso é preciso manter o foco nos objetivos e ir em frente. Para promover um ambiente mais positivo tem de se ser positivo: nas mãos do professor está sobretudo o poder de mudar o mundo, através da ação e influência sobre os seus alunos.

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3. Saber inovar

Todos os professores sabem que o estabelecimento de certas rotinas é favorável a um bom ambiente na sala de aula. Mas… e quando a rotina passa a estar na base do desinteresse dos alunos? Levar novas estratégias e recursos para a sala de aula, como um jogo didático ou permitir que os alunos organizem as suas atividades com recurso a novas tecnologias, pode ajudar a manter ou a estimular a motivação dos alunos para as aprendizagens e despertar neles a curiosidade pelo conhecimento do mundo que os rodeia. A criatividade é a chave!

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4. Criar entusiasmo pelas aprendizagens

Na sequência da inovação… vem o entusiasmo! Entusiasmo gera entusiasmo e ninguém lhe fica indiferente. Colaborar com os outros, saber transmitir uma ideia de forma estruturada, integrar uma equipa enquanto líder ou membro, pesquisar informações acerca de um tema, promovendo o desenvolvimento dos alunos enquanto pessoas autónomas… É o professor que sabe qual a melhor forma de estimular o gosto por aprender e dinamizar os alunos no âmbito das suas aulas e do seu envolvimento com a comunidade.

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5. Ser um exemplo para os seus alunos

Explicar a importância da reciclagem enquanto se deita a garrafa de água para o caixote do lixo envia uma mensagem, no mínimo, contraditória, o que mostra que até nas pequenas ações o professor deve tentar ser um exemplo. Na reciclagem e na vida dos seus alunos.

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6. Em todas as atitudes, ter consciência que ser professor é uma profissão nobre

A profissão de professor está na origem de todas as outras profissões. É graças aos professores que existem médicos, economistas, advogados… e mais professores! Quando o professor toma consciência da importância da sua ação sobre uma turma, do poder que ele tem de alargar o horizonte dos seus alunos, ele aperfeiçoa-se e não conta, não explica, nem demonstra. Ele inspira.

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A todos os professores de profissão e de coração, votos de um ano novo cheio de resoluções cumpridas, dia após dia, com os seus alunos.

Feliz ano novo!

– Susana Pedro, professora e fundadora da Sociedade do Bem

Imagem pixhder.com

Publicado originalmente em Tribuna Alentejo

 

Autoestima: As crianças e os seus super-poderes

“Uma criança com a dose certa de autoestima tem a melhor defesa contra todos os desafios da vida”. – Ariadne Brill

Os super-heróis são pessoas repletas de poderes, de defesas, de fraquezas, de coragem e acreditam piamente em si e na sua missão no mundo. Uma criança é quase igual a um super-herói quando a sua autoestima é adequada à sua idade e aos desafios que ela enfrenta. Reconhece as suas fraquezas e as suas qualidades, coopera com as outras crianças, é humilde, confiante e altruísta.

Uma boa autoestima permite à criança a não temer experiências novas, resolução de problemas, tomadas de decisões e de responder a desafios de forma saudável.

Quando explico às crianças o que é a autoestima costumo comparar este conceito a um autorretrato no qual não sentimos medo de desenhar os nossos defeitos ou as nossas qualidades e funciona como um rascunho, no qual podemos sempre melhorar, retocar ou eliminar imperfeições.

É natural existirem alturas em que o desenho se encontra repleto de vivacidade, brilho, pormenores, assim como existem outros momentos onde o negro e o cinzento imperam. Todos nós já passamos por este sentimento.

Quando penso na autoestima das crianças costumo imaginar que ainda estão a aprender as cores, a conhecer os tracejados de cada cor ou a aprender quais as combinações favoritas de cores e formas. Porquê? Porque este processo de identificação, a construção da personalidade tem os seus pilares aqui, na autoestima e auto-conceito das crianças.

O auto-conceito consiste na imagem que cada pessoa tem de si próprio, sendo que esta visão tem como base a experiência vivenciada e o seu auto-conhecimento. Por outras palavras, o auto-conceito pode funcionar como peças de um puzzle que vamos acrescentando à noção que temos de nós próprios e a autoestima pode ser vista enquanto os desenhos, os pormenores que cada peça tem e por fim, a imagem global que temos de nós próprios resulta da boa ou má consolidação da nossa auto-estima e auto-conceito.

Quando uma criança fala sobre autoestima refere que para a sentirem têm de se sentir amados, pertencerem a uma família e que esta os valoriza. A autoestima também se constrói mediante o encorajamento e o apoio dos pais ou agentes educativos em diversos momentos, especialmente quando a criança sente dificuldade em superar um obstáculo ou alcançar um determinado objetivo. O apoio da família é essencial para a construção de uma criança confiante e com mais autoestima.

Como podemos ajudar as crianças (1-8 anos de idade) a desenvolver estes “super-poderes”?

– Demonstre que gosta do seu/sua filho/a de uma maneira espontânea através dos afetos, palavras e gestos (deve fazê-lo com regularidade).

– Proporcione à criança um sentimento de pertença à família e à comunidade em que se encontra. Ajude-o a conhecer melhor a história da sua família, os seus familiares, estar em contacto com práticas típicas e culturais da sua família.

– Promova atividades ou hobbies do interesse do seu/sua filho/a. Não deve forçar uma atividade quando a criança não demonstra curiosidade ou gosto em praticá-la.

– Evite fazer comparações entre os seu filhos e as outras crianças.

– Permita à criança que o ajude nas diversas atividades que costuma realizar dentro ou fora de casa para que se sinta útil e capaz , como por exemplo: meter a mesa, ajudar a lavar a loiça, estender algumas peças de roupa ou fazer a sua própria cama.

– Perante situações de insucesso ou mau comportamento, procure criticar a ação e não a criança. Desta forma, a criança vai entender que agiu erradamente e compreender como deve agir posteriormente.

– Encoraje a criança a resolver problemas ou desafios. Quando o adulto está a apoiar e a ajudar a criança a resolver um determinado problema está a dar-lhe as ferramentas que precisa para conseguir responder naturalmente aos desafios e problemas que terá mais tarde, promovendo a sua autonomia e confiança.

– Celebre, demonstre interesse e orgulho pelas conquistas que a criança vai alcançando independentemente da sua escala de dificuldade. Devemos recordar os seus momentos de sucesso quando a criança está desmotivada ou com baixa auto-estima com o intuito de renovar e restaurar a sua confiança.

De uma forma sucinta, os adultos devem passar tempo de qualidade com a criança, ouvindo-a, ajudando-a a aprender novas coisas e atingir os seus objetivos. A autoestima deve ser promovida nas crianças e ao longo do seu desenvolvimento com o intuito de tornar as crianças mais fortes, mais resilientes, mais autónomas e confiantes.

Ao estarmos a valorizar este processo previne-se a base da saúde mental de qualquer indivíduo. Recordo e homenageio as palavras do Dr. António Coimbra de Matos nas suas aulas académicas: “Quando nos sentimos amados e reconhecidos pelo que somos desde tenra idade, conseguimos amar e ser amados pelos outros”.

A autoestima pode ser encarada como o melhor dos “super-poderes” de qualquer pessoa, pois permite-nos amar e sermos amados.

Joana Fialho, Psicóloga Clínica e colaboradora na Sociedade do Bem

Publicado originalmente em Tribuna Alentejo

PREPARAR UM FILHO PARA A VIDA

Foi no século XIX que surgiu pela primeira vez o conceito de inteligência emocional, numa obra de Charles Darwin – relacionando-o com o desenvolvimento e adaptação da espécie humana ao meio -, mas só na década de 90 do século XX é que o termo se popularizou e passou a ser tema de best-sellers e alvo de debates a vários níveis.

A inteligência emocional e social implica identificar e compreender as próprias emoções e comportamentos, bem como os dos outros, aplicando esse conhecimento em todas as relações. Com base neste pressuposto, Daniel Goleman, escritor, psicólogo, jornalista e consultor americano, fundou em 1995 a CASEL – Collaborative for Academic, Social and Emotional Learning. Esta organização tem como objetivo integrar a aprendizagem emocional e social na educação de todas as crianças, defendendo que esta aprendizagem deve passar pela aquisição e desenvolvimento de cinco competências:

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1 – AUTOCONSCIÊNCIA / AUTOCONHECIMENTO

Tomamos consciência de nós próprios quando nos conhecemos, quando sabemos identificar o que estamos a sentir e que pensamentos estão ligados a essas emoções, quando sabemos quais os nossos pontos fortes, as nossas limitações e como tudo isso afeta a forma como nos expressamos e comportamos.

As crianças sentem dificuldade em exprimirem o que sentem, ou porque não têm vocabulário, ou porque não se conhecem ainda. Podem saber explicar que estão tristes ou felizes mas normalmente sentem dificuldade em traduzir para palavras emoções como a frustração ou a desilusão. Para as ajudarmos a desenvolver esta competência podemos:

– Desenhar um cartaz com expressões faciais, com vista a aumentar o seu vocabulário e ajudar a reconhecer as emoções nos outros;

Pensar em situações positivas e sorrir para a criança logo pela manhã. É praticamente garantido que ela se deixe contagiar pelo nossa energia e boa-disposição;

– Falar sobre as emoções quando as detetamos na criança, perguntando-lhe o que ela está a sentir e levando-a a falar sobre o assunto, ajuda-a a verbalizar o que sente;

– Ajudar a criança a reconhecer os seus pontos fortes, incentivando-a a dedicar-se aos temas pelos quais demonstra interesse. Se uma criança que gosta de pintar puder explorar as tintas, pintar em telas ou participar em ateliers de pintura, ela estará a fortalecer a sua confiança nela própria e nas suas capacidades.

2 – AUTOCONTROLO

O autocontrolo relaciona-se com a capacidade de controlar os comportamentos que são despoletados por certas emoções, ou seja, com a capacidade de gerir as nossas emoções e formas de estar em diferentes situações. Na prática, consiste em sermos capazes de respirar e de nos acalmarmos quando estamos zangados, em vez de gritar. Quem não possui esta competência, está mais suscetível a sentir stresse, ansiedade, irritabilidade ou tristeza.

As crianças que desenvolvem o autocontrolo, conseguem regular o seu comportamento e definir metas para elas próprias. Para as ajudarmos a desenvolver esta competência podemos:

– Ser um exemplo de autocontrolo, utilizando estratégias para nos mantermos calmos à frente da criança, como respirar fundo ou contar até 10;

– Brincar com a criança, inventando cenários que recriem diferentes situações, que impliquem diferentes pontos de vista;

– Incentivar a criança a descobrir a melhor forma para se acalmar e respeitar o seu espaço;

– Evitar emprestar à criança o telemóvel ou o tablet sempre que ela estiver aborrecida, para que ela própria encontre alternativas para se distrair.

3 – CONSCIÊNCIA SOCIAL

Adquirimos consciência social quando somos capazes de compreender e respeitar a perspetiva dos outros, de sentir empatia por pessoas de diferentes origens e culturas e aplicar este conhecimento nas interações com os outros.

As crianças que desenvolvem consciência social são capazes de identificar que efeitos têm as suas ações nos outros. Devemos analisar as nossas atitudes e refletir se estaremos ou não a ser um exemplo para a criança. Para além de modelar o bom comportamento, podemos:

– Conversar sobre as diferentes perspetivas da história de um livro ou de um filme;

– Partilhar valores como a verdade, o respeito e a generosidade e conversar com a criança acerca de questões sociais como o racismo ou desigualdade de género.

4 – COMPETÊNCIAS RELACIONAIS

Ter competências relacionais consiste em sabermos estabelecer e manter relações positivas com os outros, o que significa comunicar de uma forma eficaz, escutar ativamente, cooperar com os outros na resolução de problemas e resolver eventuais conflitos de forma adequada.

Um bom relacionamento com os outros implica comunicar de forma eficaz e cordial e saber trabalhar em equipa, seja enquanto líder ou membro dessa mesma equipa, o que afeta positivamente a vida das pessoas, quer a nível pessoal quer profissional. Para a ajudarmos a desenvolver esta competência podemos:

– Pedir ajuda em pequenas tarefas e ir agradecendo e pedindo por favor, para que aprenda a importância da boa educação no trabalho com os outros;

– Dedicar tempo para ouvir como foi o dia da criança, o que de mais relevante aconteceu na escola. Se for muito evasiva nas respostas podemos usar alguns desbloqueadores de conversa

– Ajudar a criança a encontrar soluções para os seus próprios problemas em vez de lhe sugerir soluções;

– Falar com a criança sobre as suas amizades: quem são os seus amigos, que qualidades procura ela num amigo e de que forma gosta de ser tratada.

5 – TOMADA DE DECISÕES RESPONSÁVEIS

Tomar decisões responsáveis pressupõe saber reconhecer o efeito que as nossas escolhas têm nas nossas vidas e nas dos que rodeiam.

A criança terá de aprender a medir o impacto das suas decisões em si e nos outros. Estas decisões ajudam a desenvolver o sentido de responsabilidade e enfrentar desafios no futuro. Para a ajudarmos a desenvolver esta competência podemos:

– Mostrar que no nosso dia-a-dia também temos escolhas a fazer e partilhar algumas com as crianças, para que nos ajudem a tomar decisões simples;

– Permitir às crianças fazerem pequenas escolhas, como a roupa que vão usar ou a história que lhes vamos ler, para que sintam que têm autonomia;

– Conversar sobre as consequências: Perguntar, por exemplo, à criança como acha que vai estar no dia seguinte escola se não for para a cama àquela hora, permite à criança perceber os efeitos da sua decisão e a forma como pode ser afetada;

– Mostrar que, mesmo que as decisões sejam más, estaremos sempre do seu lado. Para isso, é necessário que as deixemos aprender com os seus próprios erros.

Ao praticarmos estas competências e ao ensinarmos os nossos filhos através do nosso exemplo, estamos a criar condições desde tenra idade para direcionem o seu potencial para a família, para a escola, para a comunidade em que está inserida. Desenvolver estas competências nas crianças, influencia o seu desenvolvimento emocional e social, promovendo a autoestima, a cooperação e favorecendo a interação social. É assim que preparamos os nossos filhos para a vida.

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Susana Pedro, Professora e fundadora da Sociedade do Bem

Imagem naescola.eduqa.me

Bibliografia:

http://www.casel.org/social-and-emotional-learning/core-competencies/

http://www.webartigos.com/artigos/o-papel-do-educador-no-desenvolvimento-da-inteligencia-emocional-das-criancas-das-series-iniciais-do-ensino-fundamental/30879/

http://www.parentoolkit.com/index.cfm?objectid=4942FBD0-A1C6-11E3-83B90050569A5318

Este Natal vá à Lua!

Amanhã é o grande dia, o dia de Natal, mas hoje é dia de grande azáfama familiar.

As ruas estão cheias de pessoas que se passeiam com sacos numa grande correria tentando salvaguardar que nenhum pormenor fique esquecido. Nada pode falhar! As crianças, essas, já suspiram pela hora em que, desenfreadamente, rasgam os papeis para saber se o Pai Natal lhes deu aquilo que durante um ano lhe pediram.

Para algumas, esta personagem é sempre bem-vinda. É aquele senhor, segundo o meu filho mais velho, de barbas branquinhas, já muito velhinho, de roupa muito quentinha e vermelha e com uns óculos à ponta do nariz que distribui as prendas na noite de Natal. Inevitáveis perguntas surgem agora deste ser que em contínua “fase dos porquês” tenta, de uma maneira assoberbante, perceber o mundo à sua volta: – “Mãe, como é que o Pai Natal chega a todas as casas do mundo só numa noite?”; “Mãe, como é que os meninos que não têm chaminé recebem prendas?”; “Mãe, como é que o Pai Natal, que é tão gordinho, cabe na nossa chaminé?”; “Mãe, como é que o Pai Natal tem fome para comer em todas as casas?”; “Mãe, como é que o Pai Natal não se engana a distribuir as prendas de tantos meninos?”; “Mãe, como é que o Pai Natal tem dinheiro para comprar tantas prendas?” Perguntas às quais confesso ter de ter muita imaginação para lhe responder.

Depois também me dá várias instruções para que, nesta noite, para ele, superexcitante, nada falte: – “Mãe, não nos podemos esquecer do leite e das bolachas para o Pai Natal!”; “Mãe, tens de ter as cenouras para pormos no quintal para as renas”; “Mãe, na noite de natal ninguém pode acender a lareira, se não o Pai Natal não consegue entrar!”

É claro que, como a maioria das crianças, também surge a inevitável vontade de conhecer o Pai Natal e aí, de uma forma meio traquinas, vem a tal questão: – “Mãe, nessa noite podemos ficar a dormir na sala para ver se vemos o Pai Natal chegar?”

Talvez nem todas as crianças vejam o Pai Natal desta forma. Este ano não sei se o meu filho mais novo “caiu de amores” por este senhor, já que foi ele que lhe levou a chupeta, a sua “pê”, o seu consolo. Acho que mesmo se nutrisse alguma simpatia pelo “Natai” – como lhe chama -, no dia em que este lhe tirou o seu bem mais precioso a sua imagem ficou um tanto ou quanto denegrida aos olhos desta criança.
Talvez nem todas as crianças acreditem no Pai Natal, muitas já questionam ser ele a dar as prendas de Natal. Muitos dizem que o Pai Natal é o pai ou a mãe, porque são eles que lhes compram as prendas.

Infelizmente também há crianças que já não acreditam, de todo, na existência do Pai Natal. Muitas são as crianças que, por variadas razões, não têm sequer a oportunidade de acreditar no Pai Natal e na magia desta época festiva.

Acima de tudo acho que o que devemos transmitir às crianças é que o Natal é uma época em que devemos salvaguardar vários valores universais, como o respeito pelo próximo, a solidariedade, a empatia, entre tantos outros igualmente importantes.

Querer fazer os outros felizes devia ser um sentimento constante e sempre presente, a preocupação com o bem-estar dos que nos rodeiam devia fazer parte do nosso dia a dia.
As crianças sabem transmitir estes sentimentos de uma forma única e para ajudar o próximo não impõem limites, nem que tenham de ir até à lua…

 

Vanessa Chinelo, Professora e colaboradora na Sociedade do Bem

Publicado originalmente no Tribuna Alentejo

Medo miudinho, põe-te de fininho

 

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Olheiras, mau humor matinal, horas de sono perdidas, café, pais rabugentos, saqueadores da cama perdida, crianças com mau acordar, entre outras caraterísticas dignas de uma família à beira de um ataque de nervos. Reconhecem este cenário?

Em muitas famílias o sono é um assunto complicado. Porquê? Porque não conseguem dormir uma noite inteira, fazem turnos para ver se a criança está bem ou responder a um pedido de ajuda, não descansam convenientemente, adquirem hábitos desadequados de sono, etc.

Caso não se recordem o que é o sono, recordo-vos que o sono é uma necessidade básica humana e desempenha um papel crucial no processo cognitivo e de aprendizagem (consolidação da memória) , na concentração e no raciocínio. A falta de sono pode prejudicar o estado de alerta, na resolução de problemas, na saúde em geral, no aumento de peso (obesidade), entre outros aspetos.

Qual é muitas vezes o responsável por esta azáfama noturna? O medo… esse inimigo de todas as crianças e pais que tentam passar uma noite descansada.

O medo é uma emoção básica que nos protege, nos alerta e nos faz sofrer. O medo é essencial para a sobrevivência humana. A noção de perigo é muito importante para o ser humano ter o conhecimento das suas limitações. Estamos acostumados a contactar todos os dias com o medo, algumas vezes conseguimos entendê-lo, superá-lo, desafiá-lo ou domá-lo.

Quando somos adultos o medo vive connosco e faz parte do nosso quotidiano e neutralizamo-lo (na maioria das situações), mas para uma criança o medo pode ser um elemento mesmo desestabilizador e limitante do seu dia-a-dia, porque ainda não aprenderam a entendê-lo e a controlá-lo. Além disso, a sua noção de perigo ainda é muito diminuta, pois ainda não têm uma noção apurada da realidade ou da morte, por exemplo.

Na hora de ir dormir o escuro é o melhor amigo dos papões, dos monstros debaixo da cama, das bruxas ou fantasmas que espreitam atrás da porta do armário e do que nos é desconhecido. Face ao medo a criança pede socorro às suas figuras de conforto e de segurança, o pai e a mãe, conhecidos pelas crianças como sendo guerreiros, super-heróis ou samurais na luta contra o medo.

Apesar do acordar atormentado por um grito ou um choro penoso, os pais devem ajudar as crianças nestas alturas em que o medo faz estragos nas noites preciosas de descanso de todos os pais, especialmente nas crianças dos 4 aos 5/6 anos de idade.

Então qual é a solução para as noites mal dormidas? Agarrem numa caneta e anotem as nossas sugestões:

– Proporcionar à criança uma rotina de sono, ou seja, a hora em que a criança se deita deve ser, na maioria, a mesma todos os dias;

– Deve-se respeitar (o quanto possível) as horas de sono adequadas a cada idade;

– Evitar que a criança tenha contacto e interação com dispositivos eletrónicos (televisão, computador ou jogos eletrónicos) 1 a 2 horas antes de deitar, pois podem ser estimular e alternar os padrões de sono.

– Sente-se numa ponta da cama ou sente-se numa cadeira frente à cama do seu filho e leia ou conte uma história delicada e relaxante. Evite, ao máximo, após a leitura deitar-se ao lado do seu filho e que ele adormeça. Porquê? Porque se a criança acordar pode já não estar ao lado dele e isso pode ser um elemento perturbador na consistência e qualidade do sono.

– Se a criança demonstrar interesse procure um objeto que lhe proporcione uma sensação de segurança e conforto, como por exemplo, um peluche ou um boneco. Pode também com a ajuda da criança construir um amuleto para ter ao seu lado na hora de dormir.

– Se a criança tiver entre 8 a 10 anos converse e explique-lhe o que é o medo, crie uma estratégia, reforce a criança a conseguir resolver o seu problema sozinha, uma vez que nesta idade torna-se importante a aquisição e capacitação da sua autonomia.

– Incentive a leitura de livros pedagógicos que ajudam as crianças a combater o medo, como por exemplo, “Pôr o medo a fugir”; “As aventuras da Joana contra o medo”, de Miguel Gonçalves; “Quem tem medo do escuro?” de vários autores; “O gato e o escuro”, de Mia Couto.

– Ter brincadeiras com as crianças desde tenra idade que envolvam o escuro. Pegue numa lanterna e brinque com a criança numa caça ao tesouro no escuro, por exemplo.

O medo consegue prejudicar o nosso bem-estar. Não desvalorize o medo das crianças, mas sim explique-lhe o que é o medo, entenda-o e normalize-o através da sua sensibilidade, brincadeira, conforto e segurança.

Joana Fialho, Psicóloga Clínica e colaboradora na Sociedade do Bem

Publicado originalmente em Tribuna Alentejo

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