Queres ser meu amigo?

“O que procuramos no mundo é um lugar onde seja possível encontrar amizade e empatia”

– Evan do Carmo

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Desde o momento em que nascemos que estamos rodeados de pessoas, precisamos dos nossos pais para cuidar de nós, dos avós, dos tios, dos melhores amigos dos nossos pais, das educadoras, dos professores, entre outras pessoas responsáveis pela nossa educação.

Por outras palavras, o ser humano, desde o primeiro dia da sua vida, está em constante contacto social. O modo como interagimos com os outros e com o meio que nos circunda irá transformar o nosso desenvolvimento, seja psicológico, emocional ou social. A partir dos 7 anos de idade, a criança descentraliza-se de si e começa a adquirir competências para conseguir dar os seus primeiros passos para a terra da “Amizade”, ou seja, a empatia começa a modificar o modo como a criança encara o seu mundo interno. A criança consegue colocar-se no lugar do outro, entender o que o outro sente em determinadas situações, partilhar emoções, dar opiniões, questionar o outro, etc.

É importante referir que desde o primeiro ano de vida que a criança experiencia vários modos de socialização que ocorrem com as suas primeiras figuras de referência: os pais. É muito importante para a saúde mental da criança a descoberta de novas sensações, pessoas, emoções, lugares e novas experiências.

O bebé vai guardando esses vários episódios emocionais e sociais numa grande biblioteca de emoções e vai adquirindo cada vez mais perceções, ideias e noções do que é estar em contacto com o mundo, como deve reagir a situações específicas, como se comportar, entre outros aspetos importantes nas primeiras noções de socialização.

Mais tarde, quando a criança entra para a creche, infantário ou outro meio que lhe proporcione novas experiências… irá conhecer mais pessoas, sobretudo crianças com idades idênticas e/ou próximas e começará a pesquisar na sua biblioteca de emoções, agora já maior e mais desenvolvida, toda uma panóplia de informação, seja esta cognitiva, emocional e social, que irá servir de modelo ou guia de orientação para as suas primeiras interações com outras crianças.

Quando se priva uma criança de socializar nos seus primeiros anos de vida, para além de empobrecer a sua vida no geral, estamos a proibir-lhe a construção contínua desta biblioteca que vos falo, o que pode ser muito triste e debilitante para o desenvolvimento cognitivo e emocional da criança. A sua maturidade ficará danificada, teremos crianças com menos capacidade de adaptação, com um comportamento mais infantil, instáveis emocionalmente, menos empáticas, mais agressivas, menos altruístas e positivas.

Num mundo cada vez mais digital, com mais informação, um contacto menos personalizado e direto nas redes sociais … deparei-me com as limitações e perigos com que as crianças hoje em dia socializam e têm as suas primeiras noções do que é ser-se amigo.

Estava a conversar com uma menina com cerca de doze anos quando a surpreendi dizendo que queria ser amiga dela, ao que ela responde que não, porque ainda não lhe tinha mandado um convite de amizade no Facebook e que só a partir desse momento poderíamos ser amigas. Tirei uma folha do meu bloco de notas e escrevi a velha forma de fazer amigos: “Queres ser minha amiga? Sim, Não, Não sei”. “Agora responde com uma cruz”, disse eu com um sorriso maroto entre os lábios.

Ela agarrou na folha, riu-se e perguntou: “Para que é que escreveste isto se estávamos aqui as duas? Podes-me perguntar agora.” Depois, meio chocada com o que aconteceu diante dos seus olhos, levou a sua mão à boca e em total surpresa e disse: “AH! Isto não faz sentido, nós estamos frente a frente. Quero ser tua amiga, Joana.”

Fazer amigos e manter amizades representam fatores muito importantes para o desenvolvimento saudável de um ser humano. Estas interações entre crianças querem-se equilibradas, recíprocas e ricas de momentos de felicidade, harmonia e de partilha.

A maioria das crianças conhecem e fazem os seus amigos na escola, no bairro onde habitam ou em grupos em que estão inseridos, como por exemplo nos escuteiros, nas atividades extra-curriculares ou no centro de explicações. As atividades mais típicas entre crianças consistem em brincar, partilhar coisas como cromos, bonecos, berlindes ou jogos e ajudar quando um amigo está mais triste, quando está com dificuldades nos trabalhos de casa ou nas avaliações escolares.

Um amigo é alguém que irá proporcionar mais autoestima, bem-estar, um melhor ajustamento escolar e social, maior estabilidade emocional, desenvolvimento da empatia, maior autoconfiança, mais atitudes positivas em ambiente escolar, entre outros aspetos.

Joana Fialho, Psicóloga Clínica e colaboradora na Sociedade do Bem

Imagem de capa daqui.

Publicado originalmente em Tribuna Alentejo

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