Ninguém nasce mau

 

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“Ninguém nasce mau” – Alice Miller

Alice Miller, psicóloga polaca e autora de livros traduzidos para várias línguas, foi pioneira na defesa da ideia que as crianças que são vítimas de castigos corporais pelos pais, tornam-se adultos agressivos “A criança esbofeteada numa geração, será a abusadora da próxima”. Para a autora, os piores ditadores do século XX, como Hitler ou Estaline, eram frequentemente maltratados na infância e aceitavam-no com naturalidade, negando sentir qualquer dor.

A sua controversa tese, contestada por muitos pais, viu pela primeira vez a luz do dia em 1979, com a publicação do livro “O Drama de ser uma criança”, que veio lançar o debate se a violência sobre as crianças gera ou não uma sociedade violenta. Começava assim a luta de Alice Miller de mudar a forma como tratamos as crianças.

O que é certo é que quase todos os pais que batem, mesmo que ocasionalmente nos seus filhos, consideram que não os maltratams: aplicar castigos físicos ou corporais é sinónimo de disciplinar e dar uma palmada ou uma bofetada não representa um mau trato, nem físico nem emocional – defendem. Esta foi a mensagem que receberam dos seus pais, e estes dos seus pais, ao longo de sucessivas gerações. E se não lhes fez mal a eles, também não fará aos seus filhos. Estes, por seu lado, consideram que se as pessoas que mais gostam deles lhes batem, deve ser para o seu bem. Afinal, muitas destas palmadas, estaladas ou empurrões foram merecidas porque eles “estavam a ser maus”.

Mas a verdade é que a violência sobre as crianças gera adultos violentos no futuro. Quando um pai bate no filho está a dizer-lhe que não vale a pena dialogar ou que, no limite, bater é correto e aceitável… Está a ensinar-lhe que quando ele não gostar que uma atitude que tenham para com ele, bater pode ser a resposta… Está a transmitir-lhe que vivemos numa sociedade em que os mais fortes têm o direito de agredir os mais fracos.

No seu livro “For your own good” (1985), Alice Miller publicou uma lista de 12 pontos¹ acerca de como deve ser uma verdadeira mudança na forma como a sociedade vê as suas crianças:

1. Todas as crianças nascem apara crescer, para se desenvolver, para viver, para amar e para articular as suas necessidades e sentimentos para sua auto proteção.

2. Para o seu desenvolvimento, as crianças precisam do respeito e proteção dos adultos que os amam e ajudam honestamente a orientá-las no mundo.

3. Quando essas necessidades vitais são frustradas e em vez disso as crianças são maltratadas, em nome das necessidades dos adultos, exploradas, espancadas, punidas, manipuladas, negligenciadas ou enganadas, sem a intervenção de qualquer testemunha, a sua integridade vai ser prejudicada.

4. As reações normais devem ser raiva e dor. Uma vez que as crianças neste tipo de ambiente são proibidas de expressar sua raiva e uma vez que seria insuportável aguentarem a dor sozinhas, as crianças são levadas a suprimir as suas emoções, a reprimir a memória do trauma e a idealizar os culpados desses abusos. Mais tarde elas não irão recordar-se o que lhes foi feito.

5. Dissociada da causa original, os seus sentimentos de raiva, impotência, desespero, solidão, ansiedade e dor vão encontrar expressão em atos destrutivos contra os outros ou contra si próprias.

6. Quando essas crianças se tornarem pais, elas irão direcionar os seus atos de vingança para com os maus tratos que receberam na infância, contra os seus próprios filhos, que eles usarão como bodes expiatórios. Os pais batem nos seus filhos com o propósito de escapar às emoções decorrentes da forma como foram tratados pelos próprios pais.

7. É essencial que, pelo menos uma vez na vida das crianças que foram maltratadas, entrem em contato com uma pessoa que sabe sem sombra de dúvida que o ambiente em que a crianças cresceu é que esteve em falta e não ela. A este respeito, o conhecimento ou a ignorância por parte da sociedade pode ser fundamental, quer a salvar quer em destruir uma vida. Aqui reside a grande oportunidade para os familiares, assistentes sociais, terapeutas, professores, médicos, psiquiatras, funcionários, enfermeiros e outras pessoas estarem presentes para apoiar a criança e acreditar nela.

8. Até agora, a sociedade protegeu o adulto e culpou a vítima. O adulto foi auxiliado por teorias, ainda em harmonia com os princípios pedagógicos do tempo dos nossos bisavós, segundo as quais as crianças são vistas como criaturas astutas, dominadas pelo Mal, que inventam histórias e atacam os seus pais inocentes. Na realidade, as crianças tendem a culpar-se da crueldade dos seus pais (que amam incondicionalmente) e a absolvê-los de toda a responsabilidade.

9. De há alguns anos para cá, tem sido possível provar, graças à utilização de novos métodos terapêuticos, que experiências traumáticas na infância reprimidas são armazenadas no corpo e, embora permaneçam inconscientes, exercem a sua influência mesmo na idade adulta. Além disso, testes eletrónicos do feto revelaram um fato até então desconhecido para a maioria dos adultos: uma criança responde a e aprende tanto ternura como crueldade desde o primeiro instante.

10. À luz deste novo conhecimento, mesmo o comportamento mais absurdo revela sua lógica, anteriormente escondida, uma vez que as experiências traumáticas da infância são reveladas.

11. A nossa sensibilização para a crueldade com que são tratadas as crianças, até agora comummente negada, bem como as consequências de tal tratamento, irão pôr um fim na perpetuação da violência de geração para geração.

12. As pessoas cuja integridade não foi atacada na infância, que foram protegidas, respeitadas e tratadas com honestidade pelos seus pais, serão – tanto na sua juventude como na idade adulta – inteligentes, sensíveis, empáticas e altamente sensíveis. Elas irão ter prazer na vida e não vão sentir qualquer necessidade de matar ou mesmo magoar os outros ou a si próprios. Elas vão usar o seu poder para se defenderem, mas não para atacar outros. Elas não serão capazes de fazer outra coisa senão respeitar e proteger os mais fracos, incluindo os seus filhos, porque é isso que eles aprenderam a partir de sua própria experiência e porque é este conhecimento (e não a experiência de crueldade) que tem sido armazenado no seu interior desde o início.

Tais pessoas serão incapazes de compreender por que as gerações anteriores tiveram de construir uma indústria de guerra gigantesca, a fim de se sentirem à vontade e seguras neste mundo. Uma vez que não tiveram de lidar com intimidação numa idade muito precoce, elas serão capazes de lidar com tentativas de intimidação na vida adulta de uma forma mais racional e mais criativa.

Por Susana Pedro, Professora e Fundadora da Sociedade do Bem

Bibliografia:

http://www.naturalchild.org/alice_miller/society_protected.html

http://www.nospank.net/pt2007.htm

1. Tradução livre de http://www.naturalchild.org/alice_miller/tenderness.html

Imagem de capa daqui.

Publicado originalmente em Tribuna Alentejo

 

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