Educar para respeitar

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Respeito provém do latim respecto, que pode significar olhar para trás muitas vezes, olhar outra vez e prestar atenção. Respeitar algo ou alguém é prestar atenção e manifestar apreço.

O não olharmos com a devida atenção para aquilo que nos rodeia, pode limitar a nossa forma de ver e, consequentemente, levar-nos a não respeitar. O respeito pelo próximo, pela natureza, por nós próprios e pelos sentimentos e valores que nos envolvem, pode determinar os sentimentos positivos e/ou negativos pelos quais pautamos a nossa vida e relação com os outros e a natureza.

Desde crianças que ouvimos “tens que respeitar os mais velhos” ou “respeitinho é muito bonito e eu gosto”, mas para além das palavras temos todos de passar à prática. Apesar de ser do senso comum que o respeito é um sentimento que todos devemos ter presente, na realidade continuamos a assistir a crianças, jovens e adultos que não respeitam o próximo. Todos os dias há pessoas a serem desrespeitadas em casa, na escola, na rua e no trabalho.

Estabelecer ideias pré-concebidas baseadas em crenças e preconceitos sociais é uma realidade comum na nossa sociedade. Discriminamos em função da idade, orientação sexual, situação económica, deficiência, nacionalidade, origem étnica ou raça, religião, convicções políticas e ideológicas. Somos nós adultos que continuamos a dar o mau exemplo.

Educar para respeitar implica prestar atenção aos sentimentos dos outros, aos seus valores e opiniões; prestar atenção à natureza, aos animais, à sua beleza e função; prestar atenção a nós próprios, àquilo que realmente nos faz bem.

As nosssas crianças têm o direito de ser educadas com base no respeito, por aquilo que são, pelo que pensam e desejam. Respeito por si próprias e pelos outros, é o caminho para eliminiar sentimentos negativos, como é o caso do preconceito e de todas as formas de desrespeito.

Quando olhamos, devemos ver, prestar atenção, olhar outra vez, compreender e respeitar.

Lucélia Rosado, Formadora e Colaboradora da Sociedade do Bem

Publicado originalmente em Tribuna Alentejo

Imagem de capa daqui.

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FAMÍLIAS REAIS À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS

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Hoje venho contar-vos uma história… Era uma vez um menino que tinha 9 anos, vivia num castelo muito bonito e todos os dias os pais o enchiam de mimos, conforto, um bom colo e iluminavam a sua vida com uma atenção especial. Os Reis não queriam magoar o seu príncipe e a palavra “Não” tinha-se tornado quase numa palavra proibida no Reino. A criança começou a desafiar os seus poderes e os seus estatutos de Rei e Rainha do Castelo.

O Príncipe detestava o som da palavra “Não”, fazia birras, batia o pé e nunca obedecia às ordens de Suas Majestades. Os Reis começaram a sentir-se frustrados, sem forças e tristes face aos comportamentos da criança. Como não sabiam o que fazer contrataram uma tutora chamada Permissividade.

A tutora Permissividade tornou-se, rapidamente, na pessoa favorita do príncipe, porque deixava que a criança fizesse tudo o que queria, sem refilar e sem dizer a “palavra proibida”. Era a felicidade instalada no Castelo para o jovem sucessor do Reino. Contudo, a criança sentia que isto não era suficiente para responder aos seus caprichos.

Os Reis alarmados com o frenesim que se instalara no Castelo quiseram contratar mais uma tutora, mas desta vez alguém que conseguisse impor regras, disciplina e responder de forma firme perante os desafios constantes da criança. A tutora chegou ao castelo e até os Reis recearam pela sua forma de ser e estar, era mandona, gritava muito, a palavra proibida tornou-se rapidamente na palavra obrigatória e a criança que até então era feliz, começou a esconder-se, a ficar frustrado e chorava.

O príncipe estava verdadeiramente cansado e triste da presença constante das suas tutoras antagónicas, procurou os seus pais e disse-lhes: “Mãe, pai… Não aguento mais… Já não consigo entender as tutoras… Uma não me diz o que devo fazer ou quando me devo portar bem, outra está sempre a gritar-me ordens… desisto!”

Os Reis preocupados com a criança falaram com o seu conselheiro, o qual lhes disse: “Majestades, vós precisardes falar com a psicóloga do Reino. Não existem mais tutoras que vos consigam ajudar”.

Aflitos, os Reis explicaram que a criança apresentava uma teimosia que nunca acabava, não obedecia às ordens, raramente assumia os seus compromissos, culpava os outros pelos seus erros, incomodava deliberadamente os outros, facilmente ficava zangada ou ressentida, tinha dificuldade em fazer amigos e que isto acontecia há mais de 6 meses.

Os Reis diziam que gostavam muito do pequeno príncipe mas já não sabiam o que deviam fazer perante esta situação e sentiam que este problema afetava também a autoestima da criança.

A psicóloga pediu para ficar a sós com a criança na sua consulta e depois chamou os pais sozinhos para o seu gabinete e disse-lhes que o príncipe apresentava comportamentos típicos de uma Perturbação de Oposição e Desafio. Incrédulos, os Reis perguntaram: “O que é isso?”

“Esta perturbação é caraterizada por um padrão recorrente de um comportamento negativista, hostil e desafiante, que interfere, de uma maneira significativa, com o desempenho familiar, escolar ou social das crianças e adolescentes. A prevalência de casos como este pode chegar até a 16 % na comunidade escolar”.

“E o que podemos fazer para ele melhorar?”- Perguntaram os Reis assustados.

A psicóloga deu-lhes um livro com algumas estratégias, as quais passo a citar:

– As ordens devem ser dadas de forma clara (uma ordem de cada vez) mas firme, no momento imediato em que a criança faz algo de errado;

– Os pais não devem desautorizar-se um ao outro (a desarmonia familiar é sentida pela criança e pode ser utilizada para manipular os pais);

– Manter um ambiente familiar estável e adequado;

– Os pais devem ser firmes nos consequências e justos nas recompensas;

– Evite gritar e ameaçar, pois o clima de hostilidade já está montado, lembre-se que a criança tende a imitar o comportamento dos adultos.

– Utilize o sistema de Custo-Resposta, o qual consiste em retirar privilégios como forma de punição e de recompensa como reforço positivo. Faça um quadro de comportamento com os dias da semana e em cada dia a criança fica responsável de desenhar um smile . Quando se porta bem e não fez birras, coloca um boneco a sorrir (desenhar com a cor Verde) e quando ocorre o oposto, um boneco triste (Vermelho).

Se no final da semana, os bonecos verdes estiverem em maioria, recompense a criança com algo que possa fazer ao fim-de-semana. Por exemplo, comer um gelado, ir ao cinema, dar um passeio (evite bens materiais). Se os bonecos vermelhos tomarem conta do quadro, é hora de punir, retire-lhe durante 3 dias (por exemplo) algo que a criança goste. Como por exemplo, tempo de televisão, jogos de consola, mesada, sair com os amigos, etc.

Os Reis seguiram com muito esforço e firmeza os conselhos da psicóloga e após 3 semanas o comportamento da criança mudou. O príncipe sentia-se mais feliz, já conseguia prever o que acontecia se ele se portasse mal ou bem, aprendeu que a palavra “Não” era necessária e que mostrava o carinho dos seus pais.

Moral da História: Os pais amam os seus filhos (príncipes ou princesas) de forma imensurável, mas a palavra “Não” deve ser vista como uma ferramenta que serve para as educar, as regras são os pilares para as crianças conseguirem adaptar-se, mais facilmente, aos comportamentos adequados do quotidiano e da nossa sociedade e a disciplina pode ser um diário de bordo, onde todos os dias devemos escrever novas linhas com o intuito de fazermos das nossas crianças, os adultos de amanhã.

Por Joana Fialho, Psicóloga Clínica e Colaboradora da Sociedade do Bem.

Publicado originalmente em Tribuna Alentejo

Imagem de capa daqui.