Sociedade do Bem vence Por um Bairro Melhor

A Visão veio a Évora escola fazer uma reportagem acerca da Sociedade do Bem e dos seus programas Pequenos Corações Gigantes, no âmbito do prémio Por um Bairro Melhor, que une a VISÃO, SIC Esperança e Comunidade EDP.

Começar a mudar o mundo no recreio da escola

Alunos da escola básica dos Canaviais, em Évora, manifestaram-se (ruidosamente) em nome de uma sociedade melhor. “Empatia” é a nova palavra no dicionário destas crianças que aprenderam a lidar melhor com as emoções através do programa Pequenos Corações Gigantes, da associação Sociedade do Bem. Um projeto apoiado pela iniciativa Por Um Bairro Melhor, que une a VISÃO, SIC Esperança e Comunidade EDP.

As palavras de ordem ecoam pelos corredores da escola mas, assim que a chuva dá tréguas, todos se encaminham animadamente para o exterior. Gritam a plenos pulmões o nome da associação que conheceram no início deste ano letivo: “Sociedade do Bem!”. Ao mesmo tempo, levantam os braços com os punhos fechados como costumam ver nas manifestações que aparecem na televisão e empunham cartazes que acabaram de fazer com frases da sua autoria. “No recreio é preciso ter criatividade e com os amigos generosidade”, lê-se num deles. “Nesta escola damos beijinhos sempre que te sentires triste”, anuncia outro cartaz. Mensagens como estas demonstram que, apesar do ruído ensurdecedor, esta não é uma manifestação de pessoas zangadas. Neste caso, todos estão entusiasmados com a perspetiva de contribuírem para um recreio mais feliz e, acreditam todos, para um mundo melhor.

A manifestação assinala, também, o apoio da iniciativa Por Um Bairro Melhor, que une a VISÃO, SIC Esperança e Comunidade EDP ao projeto Pequenos Corações Gigantes, promovido pela Sociedade do Bem. Esta associação sem fins lucrativos tem como missão desenvolver competências emocionais junto de crianças do ensino básico. Empatia, altruísmo e otimismo são alguns dos princípios-chave do programa. “A falta de competências emocionais está, muitas vezes, na base de vários problemas que encontramos nas escolas, como a indisciplina, a agressividade, a desmotivação e o insucesso ou abandono escolar”, explica a fundadora da Sociedade do Bem, Susana Pedro, 38 anos. Prevenir é a palavra de ordem do projeto, daí terem optado por intervir, sobretudo, junto de crianças que frequentam o primeiro ciclo.

CORAÇÃO DE VOLUNTÁRIO

A Sociedade do Bem conta com um ano de atividade e já interveio em várias escolas de Évora. No início deste ano letivo começou a desenvolver o projeto Pequenos Corações Gigantes com três turmas da EB1/JI dos Canaviais, localizada na mesma cidade alentejana.

A ligação do projeto ao bairro dos Canaviais, onde a escola está inserida, faz-se em grande medida através dos heartbuilders (construtores de corações), ou seja, mentores voluntários, residentes na região, que visitam a escola e inspiram as crianças através do seu exemplo pessoal. Susana Pedro recorda dois casos: “Já fizemos um programa em torno do abandono de animais e convidámos a presidente de uma associação local de defesa dos direitos dos animais para estar presente, noutra ocasião também contámos com a participação do presidente da Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental (APPACDM) de Évora para mostrarmos que cada um de nós tem características únicas e que a deficiência pode ser uma delas”.

Atualmente, uma das turmas de 3.º ano da EB1/JI dos Canaviais tem como mentor o escultor João Cutileiro, 78 anos, residente em Évora há várias décadas. O desafio é esculpirem emoções ao mesmo tempo que aprendem mais sobre elas.

Mas as atividades que contribuem para as crianças lidarem melhor com os seus sentimentos e com os dos outros são muito dinâmicas, como explicam os protagonistas: “É muito divertido porque fazemos muitas coisas diferentes uns com os outros”, conta Paula Aboim, 8 anos, da turma de 3.º ano responsável pela “manifestação do bem”. “Fizemos uma atividade em que calçávamos os sapatos de outra pessoa, depois contavam-nos a sua história e nós tínhamos de imaginar como seria se fossemos mesmo os donos daqueles sapatos”, recorda, entusiasmada, Catarina Matos, 8 anos, da mesma turma.

A diretora da Sociedade do Bem esclarece que todas as atividades são pensadas com a intenção de serem as crianças a refletirem acerca das suas preocupações e a chegarem às suas próprias conclusões. “Desenvolvemos experiências em que as crianças são os atores principais e isso toca-os muito porque cria empatia e já não se esquecem do que sentiram”, explica a antiga professora do ensino secundário.

APRENDER A FAZER AS PAZES

A palavra “empatia” foi uma das principais descobertas das três turmas com as quais a Sociedade do Bem tem vindo a desenvolver atividades na escola básica dos Canaviais. “Chamou-lhes muito a atenção por ser um termo novo e acabou por plantar uma semente”, constata, satisfeita, a professora do 3.º ano Maria do Rosário Pucarinho, 52 anos. Mas não é só a docente que nota alterações no comportamento de alguns alunos para melhor.

“Acho que agora é mais fácil fazermos as pazes porque somos mais rápidos a pedir desculpa”, acredita Rodrigo Pinheiro, 9 anos, outro dos manifestantes. A colega de turma Catarina Matos ajuda-o a completar a resposta: “É mais fácil pedirmos desculpa porque agora sabemos melhor o que a outra pessoa está a sentir”.

A manifestação programada pela Sociedade do Bem com os alunos teve como objetivo pô-los a pensar no ambiente ideal para o recreio da escola. Divididos em grupos, escolheram os princípios essenciais que devem ser respeitados nos intervalos e foi com base neles que criaram palavras de ordem e cartazes. Generosidade, amizade, carinho, confiança… Foram alguns dos valores destacados pelos alunos. Já com os cartazes prontos explicaram a outras turmas as suas ideias para um recreio mais feliz e convidaram-nas a participarem na manifestação. O desafio foi prontamente aceite e as palavras de ordem não tardaram a fazer-se ouvir na escola inteira e arredores – convém não subestimar o poder vocal das crianças…

Susana Pedro explica que é fundamental serem as crianças as escolherem o ambiente que querem ter no intervalo: “Quando as regras forem quebradas, será muito mais fácil responsabilizá-las porque foram elas que definiram as atitudes que queriam incentivar”.

CRIANÇAS QUE DÃO LIÇÕES

A fundadora da Sociedade do Bem não esconde a satisfação por ver o projeto evoluir, agora com o apoio da iniciativa Por Um Bairro Melhor. A diretora executiva da SIC Esperança, Patrícia Farinha, 33 anos, explica que o programa Pequenos Corações Gigantes será ajudado através da mobilização de voluntários e da angariação de material de escritório para as atividades desenvolvidas com as crianças. “A ideia é que continuem a intervir até ao final deste ano letivo nesta escola [EB1/JI dos Canaviais] e que no próximo passem para um bairro vizinho”, afirma Patrícia Farinha. Mas a ambição não fica por aqui: “A iniciativa Por Um Bairro Melhor tem como objetivo dar a conhecer boas práticas que possam ser disseminadas noutros bairros do país e este é um bom exemplo para isso”.

Susana Pedro não tem dúvidas quanto aos reflexos do projeto no bairro seja pelo passa-palavra das crianças que acabam por refletir sobre os problemas abordados também em casa, ensinando a literacia emocional às pessoas à sua volta, seja pela valorização da própria comunidade através dos mentores voluntários.

Atualmente, o programa dos Pequenos Corações Gigantes é dividido em doze sessões, uma vez por semana, o que equivale a um período letivo de três meses. A fundadora do projeto gostava que as atividades fossem mais prolongadas no tempo, mas também de fazer um projeto-piloto que englobasse todas as turmas de uma escola (nos Canaviais trabalham com três das nove turmas existentes) para avaliar melhor o impacto da iniciativa. Para isso, apela aos “padrinhos”.

“Como não pedimos dinheiro aos pais, porque a ideia é envolver a turma toda sem excluir ninguém, apelamos a padrinhos institucionais, públicos ou privados, que queiram patrocinar uma ou mais turmas. É desta forma que garantimos a sustentabilidade do projeto”, explica a fundadora da associação.

O entusiasmo dos jovens manifestantes teve de ser controlado com a ajuda de um megafone, mas os dois militares da GNR que assistiram ao protesto só intervieram com sorrisos condescendentes. Paula Aboim desafia os adultos a também fazerem uma manifestação pelo bem. E até já tem uma ideia para a próxima fase do projeto: “Devíamos fazer uma Sociedade do Bem para adultos em que seríamos nós a explicar-lhes as emoções”. Estarão os mais velhos à altura da lição?

Clique para ler a reportagem da Visão

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