A vida é bela 2.0

Por Bruno Serranito

A vida é Bela é o título que a Susana Pedro propôs para esta nova rubrica que agora partilhamos no espaço da Tribuna. Concordei de imediato e senti-me instantaneamente teletransportado para um dos filmes que mais me marcaram na vida.

E em simultâneo viajei para uma das minhas primeiras aventuras em contexto laboral, quando ouvia o benevolente Sr. Laranjeira, bem lá do alto da extraordinária sabedoria que os anos lhe permitiram acumular, declamando diariamente a sua eterna máxima:

– “A vida é Bela… a gente é que dá cabo dela…”

E hoje tudo isto me veio à pele…hoje senti um murro no estômago quando pedi à minha filha que viesse espreitar a rua comigo. Esta valente menina de 6 anos está fechada há mais de um mês em casa, tal como tantos outros pequenos grandes heróis. Mas ainda assim, lá conseguiu angariar a coragem suficiente para controlar o seu impulso natural e para me responder:

– “Não pai… Temos de ter cuidado com o Coronavírus…”

Ah, o Coronavírus… esse inimigo invisível que nos detém em nós e que não nos permite avançar em tantas das direções que tínhamos sonhado antes.

É difícil saber que pais somos em situações para as quais ninguém nos preparou, sem quaisquer modelos prévios anteriores e sem nenhumas certezas face ao desconhecido. Se a identidade é a “coluna vertebral” do nosso psiquismo, quem seremos nós nestes dias que não nos permitem antecipar nem dominar o nosso rumo?

Foi nessa altura que dei por mim, qual projeto caseiro de Benigni alentejano, a engolir a tristeza que as suas palavras me causavam e a iniciar uma espécie de tragicomédia que a distraísse e fizesse rir novamente perante as nossas circunstâncias. Entre teatro, desenhos e poções mágicas, descobrimos que podemos construir um incrível arsenal de bem-estar.

E dei comigo a pensar para mim próprio… ser pai é isto… é mesmo isto… é engolir, mastigar, digerir e devolver algo inicialmente terrível que pode ser transformado e ressignificado numa outra coisa que pode vir a ser tolerável, que pode inclusivamente ser boa, que pode até chegar a ser bela. Dizendo sempre a verdade!

É permitir continuar a navegar na noite escura como o breu, sem GPS, mapa ou bússola, mesmo quando já não se veem as estrelas para nos guiar o caminho, mas sabendo sempre que elas estão lá, cintilantes, inamovíveis e irrefutáveis.

E ensinar os nossos a acreditar que conseguirão ver o invisível, mesmo que os seus olhos e o seu coração não o alcancem no imediato.

É continuar a articular para os nossos filhos as palavras resiliência e adaptação, modelos maiores de saúde mental, numa linguagem que eles possam compreender e modelar.

E seguir a acreditar que uma vida não pode apenas ser vivida, ela tem de continuar a ser sonhada… Afinal a vida é Bela… é aquilo que nós fizermos dela!

Artigo publicado originalmente no Tribuna Alentejo

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