No afeto do teu olhar

O dia anterior tinha sido terrível, com casos clínicos muito complicados e uma noite pessimamente dormida. Despertei ainda triste e pesado com a certeza da inevitabilidade de acordar para o que viria a ser um dia cinzento e carregado de nuvens negras…

Depois vi-te a correr para mim, com o sorriso a rasgar-te o rosto e com a tua boca desdentada a pronunciar as mais belas palavras mágicas

….

Bom dia papá

Foi o suficiente para imediatamente espalhares em mim uma manhã cheia de sol. É impressionante a força e o bem que os afetos positivos nos trazem à alma.

Desde que se iniciou o período de confinamento que só faço consultas de psicologia online. Têm sido uma experiência muito interessante, mas nunca poderão substituir a importância da presença física e do contacto direto… Inversamente proporcional parece ser o tempo que os pais e filhos têm vindo a passar juntos. Entre obrigações e deveres, os afetos mobilizados intensificaram-se e transformam-se numa redescoberta relacional onde o tempo assumiu uma nova medida e uma nova dimensão.

É evidente que tenho encontrado casos muito difíceis com matrizes relacionais bastante destruturadas e violentas, muitas vezes amplificadas pelo confinamento. Mas prefiro hoje focar-me na grande surpresa que tem sido ver a redescoberta dos afetos por parte de tantas famílias com quem tenho falado.

Não obstante o cansaço e a grande exigência a que pais e filhos estão sujeitos, tem sido inacreditável ver tantas conquistas mútuas partilhadas. Uns e outros a florescer em direções novas e a darem um novo significado à forma como se ligam.

Muitas das crianças que tinha em apoio com dificuldades de aprendizagem, parecem ter aproveitado esta oportunidade para se reinventarem enquanto aprendentes… Um número idêntico de pais passaram a ser “obrigados” a ter mais tempo para acompanhar o processo de aprendizagem dos seus filhos… E é vê – los inchados de orgulho a celebrar os seus progressos… Nestes casos, sem dúvida que tem sido a presença dos pais o principal catalizador do processo de aprendizagem.

A certeza em mim de que os pais não devem ser professores dos alunos é exatamente proporcional à convicção de que mais do que qualquer outra coisa, será a natureza dos afetos mobilizados que os poderá direcionar construtivamente num saudável processo de aprendizagem. Depois disso a curiosidade, a motivação e a capacidade para reter a informação recolhida. Mas que nunca se perca o que tão arduamente se conquistou e que saibamos retirar as ilações mais importantes para os nossos filhos.

Teremos ainda o desafio de os ensinar a redescobrir os afetos num mundo diferente, onde o toque é interdito e parte da informação visual que permite identificar as emoções do outro passa a ser circunscrita pela ausência parcial de um rosto que se encontra escondido atrás de uma máscara.

Restam-nos os olhos… Diz a sabedoria popular que os olhos são o espelho da alma. Dizem os compêndios de psiquiatria que são um dos primeiros indicadores de patologia ou saúde mental. Dizem os psicólogos que é no reflexo dos olhos do outro que eu me reconheço a mim próprio enquanto pessoa…

Que nos saibamos então olhar melhor… A nós próprios e uns pelos outros…

Publicado originalmente no Tribuna Alentejo

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