Queres ser meu amigo?

“O que procuramos no mundo é um lugar onde seja possível encontrar amizade e empatia”

– Evan do Carmo

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Desde o momento em que nascemos que estamos rodeados de pessoas, precisamos dos nossos pais para cuidar de nós, dos avós, dos tios, dos melhores amigos dos nossos pais, das educadoras, dos professores, entre outras pessoas responsáveis pela nossa educação.

Por outras palavras, o ser humano, desde o primeiro dia da sua vida, está em constante contacto social. O modo como interagimos com os outros e com o meio que nos circunda irá transformar o nosso desenvolvimento, seja psicológico, emocional ou social. A partir dos 7 anos de idade, a criança descentraliza-se de si e começa a adquirir competências para conseguir dar os seus primeiros passos para a terra da “Amizade”, ou seja, a empatia começa a modificar o modo como a criança encara o seu mundo interno. A criança consegue colocar-se no lugar do outro, entender o que o outro sente em determinadas situações, partilhar emoções, dar opiniões, questionar o outro, etc.

É importante referir que desde o primeiro ano de vida que a criança experiencia vários modos de socialização que ocorrem com as suas primeiras figuras de referência: os pais. É muito importante para a saúde mental da criança a descoberta de novas sensações, pessoas, emoções, lugares e novas experiências.

O bebé vai guardando esses vários episódios emocionais e sociais numa grande biblioteca de emoções e vai adquirindo cada vez mais perceções, ideias e noções do que é estar em contacto com o mundo, como deve reagir a situações específicas, como se comportar, entre outros aspetos importantes nas primeiras noções de socialização.

Mais tarde, quando a criança entra para a creche, infantário ou outro meio que lhe proporcione novas experiências… irá conhecer mais pessoas, sobretudo crianças com idades idênticas e/ou próximas e começará a pesquisar na sua biblioteca de emoções, agora já maior e mais desenvolvida, toda uma panóplia de informação, seja esta cognitiva, emocional e social, que irá servir de modelo ou guia de orientação para as suas primeiras interações com outras crianças.

Quando se priva uma criança de socializar nos seus primeiros anos de vida, para além de empobrecer a sua vida no geral, estamos a proibir-lhe a construção contínua desta biblioteca que vos falo, o que pode ser muito triste e debilitante para o desenvolvimento cognitivo e emocional da criança. A sua maturidade ficará danificada, teremos crianças com menos capacidade de adaptação, com um comportamento mais infantil, instáveis emocionalmente, menos empáticas, mais agressivas, menos altruístas e positivas.

Num mundo cada vez mais digital, com mais informação, um contacto menos personalizado e direto nas redes sociais … deparei-me com as limitações e perigos com que as crianças hoje em dia socializam e têm as suas primeiras noções do que é ser-se amigo.

Estava a conversar com uma menina com cerca de doze anos quando a surpreendi dizendo que queria ser amiga dela, ao que ela responde que não, porque ainda não lhe tinha mandado um convite de amizade no Facebook e que só a partir desse momento poderíamos ser amigas. Tirei uma folha do meu bloco de notas e escrevi a velha forma de fazer amigos: “Queres ser minha amiga? Sim, Não, Não sei”. “Agora responde com uma cruz”, disse eu com um sorriso maroto entre os lábios.

Ela agarrou na folha, riu-se e perguntou: “Para que é que escreveste isto se estávamos aqui as duas? Podes-me perguntar agora.” Depois, meio chocada com o que aconteceu diante dos seus olhos, levou a sua mão à boca e em total surpresa e disse: “AH! Isto não faz sentido, nós estamos frente a frente. Quero ser tua amiga, Joana.”

Fazer amigos e manter amizades representam fatores muito importantes para o desenvolvimento saudável de um ser humano. Estas interações entre crianças querem-se equilibradas, recíprocas e ricas de momentos de felicidade, harmonia e de partilha.

A maioria das crianças conhecem e fazem os seus amigos na escola, no bairro onde habitam ou em grupos em que estão inseridos, como por exemplo nos escuteiros, nas atividades extra-curriculares ou no centro de explicações. As atividades mais típicas entre crianças consistem em brincar, partilhar coisas como cromos, bonecos, berlindes ou jogos e ajudar quando um amigo está mais triste, quando está com dificuldades nos trabalhos de casa ou nas avaliações escolares.

Um amigo é alguém que irá proporcionar mais autoestima, bem-estar, um melhor ajustamento escolar e social, maior estabilidade emocional, desenvolvimento da empatia, maior autoconfiança, mais atitudes positivas em ambiente escolar, entre outros aspetos.

Joana Fialho, Psicóloga Clínica e colaboradora na Sociedade do Bem

Imagem de capa daqui.

Publicado originalmente em Tribuna Alentejo

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A Paz começa por ti

“A não-violência absoluta é a ausência absoluta de danos provocados a todo o ser vivo. A não-violência, na sua forma ativa, é uma boa disposição para tudo o que vive. É o amor na sua perfeição.” – Mahatma Gandhi

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A 30 de janeiro de 1948, Mahatma Gandhi, conhecido mundialmente pelo seu papel na defesa da não violência, foi assassinado com três tiros no jardim da sua casa, onde se encontrava a rezar com um grupo de pessoas. No dia seguinte, milhões de pessoas quiseram prestar homenagem ao pacifista, integrando o cortejo fúnebre e acompanhando o seu corpo até ao rio Yamuna que, conforme a tradição hindu, foi incinerado numa jangada.

Como forma de assinalar esta data trágica e de passar, através dela, uma consciência de paz interior através da educação, em 1964, Llorenç Vidal criou o Dia Escolar da Não-Violência e da Paz. Segundo o poeta, educador e pacifista espanhol, relacionado com a criação desta efeméride esteve o desejo de criar uma “semente de não violência e paz depositada na mente e no coração subconsciente dos educandos e, através deles, da sociedade”.

Anualmente, esta data inspira milhares de alunos em escolas do mundo inteiro a refletirem sobre a importância da Paz, indo ao encontro do espírito consagrado no Preâmbulo da Constituição da UNESCO, que defende a necessidade de educar para a solidariedade e para o respeito pelos outros: “As guerras nascem na mente dos homens, é na mente dos homens que deve edificar-se a paz”.

Desde o nível pré-escolar que a educação de atitudes e valores desempenha um papel primordial na formação pessoal e social, por se associar à “forma como a criança se relaciona consigo própria, com os outros e com o mundo” (Orientações Curriculares para a Educação Pré-Escolar). Promover uma educação que desperte desde cedo sentimentos de solidariedade e de justiça não é tarefa exclusiva de um único dia, mas é importante que a data sirva de mote para despertar esta consciência nas crianças e jovens, através de atividades que sensibilizem para a não-violência e paz que envolvam toda a comunidade escolar.

“Pode parecer quente, luminosa, forte. Ou calma, fresca e doce. Podemos encontrá-la em lugares movimentados e barulhentos. E pode não haver no lugar mais calmo e mais silencioso do mundo. Paz significa diferentes coisas para diferentes pessoas, em diferentes lugares e em diferentes épocas de suas vidas.

E então… O que é paz? De onde vem ela? Onde encontrá-la? Como mantê-la?

Paz é termos as coisas que precisamos. Comida, água, um sítio para viver, roupas que nos protejam, ajuda quando estamos doentes ou nos magoamos… Paz é termos pequenas coisas… Uma chávena de chocolate quente numa noite de inverno, um passeio por uma praia deserta ou um lugar especial onde possamos ficar a sós com nossos amigos. E coisas grandes….como não sentir medo, como ter oportunidade de estudar e aprender, como saber que somos queridos pelas nossas famílias ou nossos amigos. Paz é poder ter pelo menos algumas das coisas que se deseja. As pessoas desejam e precisam diferentes coisas. Paz é podermos ser diferentes dos outros e deixarmos os outros serem diferentes de nós. Porque as pessoas são diferentes umas das outras. E mesmo quando as pessoas não são muito diferentes, às vezes surgem problemas. Elas podem querer ter a mesma coisa ao mesmo tempo. E talvez então não haja.

O que acontece quando as pessoas não se entendem? Pode haver discussões, palavras irritadas, silêncios – ou até mesmo brigas. Isso pode durar muito tempo ou pouco tempo.

Até  um dos lados ganhar. Até um conseguir o que quer ou precisa e o outro lado desistir. Aí, a paz para.
Mas pode acontecer algo diferente. Um outro tipo de discussão em que as pessoas explicam o que querem. Em que um ouve o que o outro tem a dizer. Em que trabalham juntos para resolver o problema, para que os dois lados possam ter aquilo que querem ou precisam -pelo menos em parte (…)

Há sempre escolhas que podemos fazer. Algumas escolhas podem acabar com a paz, algumas escolhas podem proteger a paz. Todos os dias pessoas fazem escolhas e essas escolhas afetam os outros, mas também a nós próprios. As mesmas escolhas são feitas quando há problemas entre um país e outro. Algumas escolhas levam à guerra. Mas se as pessoas falarem, ouvirem e trabalharem juntas, a paz pode ser protegida. Nem sempre é fácil. É preciso dois para trabalharem juntos. Mas também é preciso dois para lutar.

Trabalhar pela Paz pode ser mais difícil do que usar a força: podes ter de ser mais corajoso e forte e de usar novas maneiras de pensar para fazer as coisas. Mas se pensarmos na nossa família, na nossa escola, no nosso país, no nosso planeta…

Vale a pena.

A Paz começa por ti.”

– Excerto de Texto de Katherine Scholes, in “Tempos de Paz”, São Paulo, Global, 1999.

 

Por Susana Pedro, professora e fundadora da Sociedade do Bem

 

Imagem daqui.

Publicado originalmente em Tribuna Alentejo

 

 

Refletir, é preciso…

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Refletir é pensar sobre as coisas, a realidade que nos rodeia. Podemos estar a falar de atitudes, comportamentos, temas relevantes que despertam a nossa atenção, da personalidade dos outros ou da forma como vamos arranjar solução para o tal problema que temos no dia-a-dia. No nosso quotidiano somos constantemente confrontados com a necessidade de refletir.

Os professores, formadores e todos os especialistas na área da educação e formação deparam-se cada vez mais com a dificuldade que os adolescentes têm em pensar, até refletir antes de agir. Parece ser mais fácil indicar, referir, repetir o conhecimento que nos foi transmitido, do que refletir, comentar, dar a opinião, utilizar argumentos pessoais com base na própria experiência e falar sobre si próprio. Será que a escola, a família e a sociedade em geral, estão mais preocupados com o fato das suas crianças, adolescentes e um dia adultos, saberem muita coisa, ao invés de pensarem sobre essas mesmas coisas? Ou serão as novas tecnologias e o acesso facilitado a todas as áreas do saber que descomprometem as crianças e jovens desta necessidade?

Para Carl Rogers (1902 – 1987), psicoterapeuta, a verdadeira aprendizagem era mais que a mera aquisição de conhecimentos, propondo este uma superação do modelo passivo, memorístico e mecânico tradicional, por meio de uma aprendizagem vivencial, porque a educação não é adestramento, tornar destro, mas sim a capacidade de evoluirmos enquanto pessoas, construir o nosso próprio caminho.

Não será mais pertinente ajudar as nossas crianças, que um dia serão os nossos adultos, a pensar por si próprios? Pois é, preparar pessoas, seres humanos responsáveis, deverá começar por ensinar aos mais pequenos a importância de refletir sobre as suas atitudes e as atitudes dos outros, sobre a diferença e a forma de lidar com esta, sobre temas como o racismo, preconceito, guerras, entre tantos outros que invadem a nossa vida todos os dias.

Desde cedo é preciso utilizar estratégias, talvez baseadas em métodos ativos que conduzam à reflexão, para que mude alguma coisa. Isto deve começar em casa, desenvolvendo-se na escola e na própria comunidade. Para tal, os pais, educadores, professores e todos os adultos que de certa forma são responsáveis por educar/ensinar crianças e jovens, devem, antes de mais, orientar, acompanhar, provocar a modificação destes enquanto pessoas, o que permitirá alterar comportamentos e atitudes perante a vida em comunidade.

Criar boas pessoas, conscientes e com comportamentos assertivos deverá ser prioridade. Refletir, continua a ser preciso!

Lucélia Rosado, formadora e colaboradora na Sociedade do Bem

Imagem daqui

Publicado originalmente em Tribuna Alentejo

Uma questão de tempos!

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No meu tempo! Quando ouvimos esta expressão pensamos sempre que está a ser referida por alguém muito mais velho do que nós. Mas também eu já a refiro muitas vezes, isto porque acho que nos últimos tempos tudo evoluiu a uma velocidade estonteante e refiro-me mesmo a tudo!

Ouvir o meu filho perguntar: “Mãe, onde está o carregador do meu tablet?”, ou “Mãe, posso tirar uma fotografia com o teu smartphone?”, ou ainda “Mãe, posso ir ouvir música no meu ipad?” Perguntas como estas nunca as fiz aos meus pais. Por um lado, consigo aceitar e até ver o lado positivo desta evolução, por outro confesso que me assusta e penso muitas vezes se o meu abraço não será trocado por uma simples conversa via skype.

Se eu vibrava com a história da Bela Adormecida e ficava entusiasmadíssima com o simples facto de saber se o príncipe chegaria a tempo de a beijar ou não, ou ficava emocionada ao ver a princesa Bela a dançar com o Monstro, ou aterrorizada ao ver as maldades da bruxa para com a Branca de Neve, hoje, o meu filho prefere ficar colado ao ecrã a ver bonecos só com pés e cabeça, azuis e cor de laranja a fazer piadas sobres vómitos, ou a ver um boneco que se designa como sendo uma esponja amarela que vive num ananás no fundo do mar e que tem como seu melhor amigo uma espécie de estrela do mar, que mora debaixo de uma pedra na rua da Concha mais propriamente na Fenda do Bikini , ou ainda, como dois patos que conduzem uma espécie de foguetão e a sua missão é entregar pães pela Patolândia… Estes patos têm como grande ídolo o Padeiro e contam piadas que só crianças desta idade parecem perceber. Enfim, tempos são tempos e tenho de ser eu, claro, a adaptar-me ao tempo dele.

No entanto, não deixa de ser interessante ver como uma criança de 5 anos coloca um DVD a funcionar ou como liga um computador portátil e diz precisar de uma pen drive para guardar as imagens de super-heróis que acabou de descobrir na sua viagem pela internet.

Se a nós pais já causa estranheza, imaginem os pobres dos avós que ficam todos baralhados com esta nova linguagem e com tanta tecnologia que lhes rouba a atenção dos seus netos. “Avô, o teu telemóvel não presta, não tem jogos nem dá para tirar fotografias!” E o meu pai, coitado, olha para mim com aquela expressão que eu tão bem conheço e sei que está a pensar: “Mas este aparelho que a minha filha me deu e me obriga a usar não serve apenas para receber e fazer chamadas para a tranquilizar de que estou bem esteja eu onde estiver?”

Como posso explicar ao meu pai que o meu filho não sabe lançar um pião? Ou que o rapaz não é muito dado a jogar ao berlinde?

Contudo, é bom ver como jogam os dois à bola no quintal, é bom ver como o meu pai finge estar a perceber o que o neto lhe está a explicar num jogo do tablet, ou como se mostra conhecedor das aventuras e das personagens que o neto descreve dos desenhos animados que vê. É bom ver o entusiamo dos dois enquanto o avô explica, com a paciência que só ele sabe ter, como funciona uma cana de pesca. É bom ver que adoram estar juntos simplesmente a passear, que mesmo distantes em algumas coisas estas idades se aproximam em tantas outras, como no amor, no companheirismo, na amizade e nem mesmo a questão das tecnologias os afasta.

Vanessa Chinelo, Professora e colaboradora na Sociedade do Bem

Imagem de capa daqui.

Publicado originalmente em Tribuna Alentejo

 

As crianças e os animais

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Muitos adultos pensam que as crianças não devem estar em contato com os animais. Porquê? Por ideias preconcebidas dos adultos, pelo medo das crianças serem magoadas ou mordidas, pela transmissão de doenças, pulgas ou outras razões.

A verdade é que as crianças podem e devem ter uma interação positiva com os animais. Como? Prevenindo os medos dos pais ou cuidadores com a desparatização ou vacinação dos animais com quem estarão em contato e ensinar às crianças como devem lidar com os animais, para que estas não entrem em conflito com o temperamento, o comportamento,o instinto dos animais, etc.

Quando um animal fica aos cuidados de uma criança, o adulto deve dar instruções claras e concretas sobre as necessidades dos animais, como por exemplo, a alimentação adequada , qual e como deve ser o espaço designado para o seu repouso, os seus passeios, os cuidados de higiene a ter e informar acerca dos hábitos e comportamentos típicos de cada animal.

Após a criança receber as orientações do adulto, deve procurar estabelecer de forma calma e gradual uma relação com o animal, seja este, cão, gato, tartaruga, hamster ou outro animal. É de salientar a importância do toque, do olhar, do olfato,dos movimentos a adotar , do respeito pelo espaço e tempo do animal para a sua adaptação aos seus cuidadores.

Pergunta-se: “Mas porque é que é tão importante para as crianças estarem em contato com os animais?” O convívio com os animais promove o desenvolvimento físico, social, emocional e cognitivo da criança.

– Desenvolvimento Físico

O contato com animais desde os primeiros anos de vida , ao contrário do que muitos adultos temem, pode ser bastante benéfico para a criança, uma vez que proporciona o desenvolvimento do sistema imunológico, ajudando a criança a desenvolver as suas defesas.

Os animais podem tornar-se num forte incentivo para as crianças correrem mais e colocarem em prática as suas capacidades motoras, como por exemplo: pular, esconderem-se, atirarem objetos, etc. Presentemente, as crianças são muito sedentárias e o facto de terem um companheiro com quem podem passear, brincar e interagir é muito importante. A maioria dos animais domésticos necessita de ser passeados. Esta atividade possibilita à criança a exploração e melhoria do seu contacto e interação com o exterior e com a natureza envolvente. É claro que estas atividades devem ter cuidados especiais e estão dependentes da idade da criança e pressupõem a supervisão de um adulto.

– Desenvolvimento Social

Os animais funcionam como fantásticos facilitadores sociais. Sabia que as crianças têm uma maior tendência para se aproximarem e interagirem com outra criança que esteja a brincar com um animal? Muitas vezes os animais podem facilitar a interação entre crianças introvertidas e/ou menos extrovertidas.

Além disso, um bom relacionamento com os animais pode contribuir para uma melhoria da socialização através do desenvolvimento da comunicação não-verbal, do respeito, da compaixão e da empatia. As crianças que interagem com os animais têm uma maior tendência para o companheirismo, são mais afetuosas e altruístas, reconhecem e conseguem exprimir com maior facilidade as suas emoções.

– Desenvolvimento Emocional

A interação entre as crianças e os animais promove o desenvolvimento emocional em vários aspectos, sobretudo na promoção de competências emocionais como a autoestima, a autoconfiança e a responsabilidade.

De uma forma geral, as crianças que cuidam de um animal aprendem a realizar e cumprir tarefas, a serem responsáveis e a assumirem um compromisso. O facto de uma criança conseguir cuidar de um animal a seu cargo aumentará a sua noção de autoeficácia, autoconfiança e de responsabilidade face a algo tão importante que é tratar e cuidar de outra vida. Obviamente que mediante a faixa etária da criança e da espécie do animal doméstico escolhido, o seu grau de responsabilidade face ao animal deve ser coerente e adequada.

Por exemplo: Aos 3 anos de idade, as crianças podem ajudar os pais a encherem uma taça com ração, usando para o efeito uma colher grande. Aos 5 anos de idade, a criança pode assumir tarefas básicas de higiene como, por exemplo, ajudar a limpar a área de estar do animal (varrer ou arrumar objetos). A partir da idade escolar, as crianças podem começar a passear um cão de forma mais independente. Na adolescência, a criança provavelmente já terá capacidade para assumir uma maior responsabilidade face ao animal e aos seus cuidados.

– Desenvolvimento Cognitivo

Ao longo do crescimento das crianças podemos descobrir que o seu gosto por determinadas espécies, raças ou distintos animais pode variar assim como o conhecimento sobre cada um. Muitas vezes os animais podem ser um forte incentivo para o seu filho a ler, pesquisar ou ver vídeos pedagógicos sobre o seu animal favorito ou outros animais pelos quais demonstre curiosidade. Esta atividade pedagógica pode ajudar bastante no desenvolvimento cognitivo da criança, especialmente no âmbito da aprendizagem e motivação.

Quando é o momento certo para ter um animal de estimação?

Tudo depende das suas condições, possibilidades financeiras, espaço para abrigar e permitir uma vida saudável e confortável ao animal, dinâmica familiar, entre outras razões a ter em conta nesta decisão. É de salientar que quando tomar a sua decisão deve ter em conta os seguintes fatores: a idade e a capacidade de responsabilidade da criança assim como a orientação e supervisão dos pais e ou cuidadores da criança. Lembre-se que um animal não é um brinquedo e transmita este pensamento para a criança, ensine-o a cuidar e apreciar outra vida.

Joana Fialho, Psicóloga Clínica e colaboradora na Sociedade do Bem

Imagem de capa daqui.

Publicado originalmente em Tribuna Alentejo

Ano novo, escola nova!

* ou resoluções de ano novo que todos os professores deviam fazer

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Vem aí a passagem de ano, época de fazer resoluções: perder peso ou adotar um estilo de vida mais saudável são as mais comuns, mas… e um professor? O que decide um professor alterar ou melhorar no ano que entra para que este se transforme no ano da sua vida, para além das resoluções mais comuns que fazem parte da lista? Que objetivos poderá ele definir para si e, consequentemente para a sua sala de aula, para criar um ambiente mais positivo para todos?

Este artigo reúne algumas sugestões de resoluções de ano novo que poderão inspirar professores e fazê-los voltar a sentir a mesma energia com que contagiavam os colegas durante o seu ano de estágio ou no primeiro ano em que deram aulas. Afinal, ainda vamos a caminho do 2º período e está na altura de recarregar as baterias porque… ano novo, escola nova!

  1. Ser mais autêntico

Todos nós já tivemos, a certa altura da vida, um professor que nunca esquecemos. Um professor que, mais que ver os seus alunos, conseguia ver pessoas, que conseguia manter um relacionamento genuíno com sua turma e por isso, as suas aulas eram fantásticas! Este tipo de relacionamento era construído ao longo do tempo e geralmente a disciplina a cargo deste professor passava a ser a disciplina favorita dos seus alunos naquele ano e tanto fazia se era Matemática, História ou Francês. Um professor autêntico tem em si o poder de marcar a vida dos alunos para sempre e de se tornar inesquecível.

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2. Ser positivo

Toques de entrada, toques de saída, livros de ponto, pautas, fichas corrigidas e outras tantas por corrigir…Quem escolhe ser professor sabe que há profissões mais tranquilas mas há que continuar a correr… e por gosto! Para isso é preciso manter o foco nos objetivos e ir em frente. Para promover um ambiente mais positivo tem de se ser positivo: nas mãos do professor está sobretudo o poder de mudar o mundo, através da ação e influência sobre os seus alunos.

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3. Saber inovar

Todos os professores sabem que o estabelecimento de certas rotinas é favorável a um bom ambiente na sala de aula. Mas… e quando a rotina passa a estar na base do desinteresse dos alunos? Levar novas estratégias e recursos para a sala de aula, como um jogo didático ou permitir que os alunos organizem as suas atividades com recurso a novas tecnologias, pode ajudar a manter ou a estimular a motivação dos alunos para as aprendizagens e despertar neles a curiosidade pelo conhecimento do mundo que os rodeia. A criatividade é a chave!

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4. Criar entusiasmo pelas aprendizagens

Na sequência da inovação… vem o entusiasmo! Entusiasmo gera entusiasmo e ninguém lhe fica indiferente. Colaborar com os outros, saber transmitir uma ideia de forma estruturada, integrar uma equipa enquanto líder ou membro, pesquisar informações acerca de um tema, promovendo o desenvolvimento dos alunos enquanto pessoas autónomas… É o professor que sabe qual a melhor forma de estimular o gosto por aprender e dinamizar os alunos no âmbito das suas aulas e do seu envolvimento com a comunidade.

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5. Ser um exemplo para os seus alunos

Explicar a importância da reciclagem enquanto se deita a garrafa de água para o caixote do lixo envia uma mensagem, no mínimo, contraditória, o que mostra que até nas pequenas ações o professor deve tentar ser um exemplo. Na reciclagem e na vida dos seus alunos.

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6. Em todas as atitudes, ter consciência que ser professor é uma profissão nobre

A profissão de professor está na origem de todas as outras profissões. É graças aos professores que existem médicos, economistas, advogados… e mais professores! Quando o professor toma consciência da importância da sua ação sobre uma turma, do poder que ele tem de alargar o horizonte dos seus alunos, ele aperfeiçoa-se e não conta, não explica, nem demonstra. Ele inspira.

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A todos os professores de profissão e de coração, votos de um ano novo cheio de resoluções cumpridas, dia após dia, com os seus alunos.

Feliz ano novo!

– Susana Pedro, professora e fundadora da Sociedade do Bem

Imagem pixhder.com

Publicado originalmente em Tribuna Alentejo

 

Autoestima: As crianças e os seus super-poderes

“Uma criança com a dose certa de autoestima tem a melhor defesa contra todos os desafios da vida”. – Ariadne Brill

Os super-heróis são pessoas repletas de poderes, de defesas, de fraquezas, de coragem e acreditam piamente em si e na sua missão no mundo. Uma criança é quase igual a um super-herói quando a sua autoestima é adequada à sua idade e aos desafios que ela enfrenta. Reconhece as suas fraquezas e as suas qualidades, coopera com as outras crianças, é humilde, confiante e altruísta.

Uma boa autoestima permite à criança a não temer experiências novas, resolução de problemas, tomadas de decisões e de responder a desafios de forma saudável.

Quando explico às crianças o que é a autoestima costumo comparar este conceito a um autorretrato no qual não sentimos medo de desenhar os nossos defeitos ou as nossas qualidades e funciona como um rascunho, no qual podemos sempre melhorar, retocar ou eliminar imperfeições.

É natural existirem alturas em que o desenho se encontra repleto de vivacidade, brilho, pormenores, assim como existem outros momentos onde o negro e o cinzento imperam. Todos nós já passamos por este sentimento.

Quando penso na autoestima das crianças costumo imaginar que ainda estão a aprender as cores, a conhecer os tracejados de cada cor ou a aprender quais as combinações favoritas de cores e formas. Porquê? Porque este processo de identificação, a construção da personalidade tem os seus pilares aqui, na autoestima e auto-conceito das crianças.

O auto-conceito consiste na imagem que cada pessoa tem de si próprio, sendo que esta visão tem como base a experiência vivenciada e o seu auto-conhecimento. Por outras palavras, o auto-conceito pode funcionar como peças de um puzzle que vamos acrescentando à noção que temos de nós próprios e a autoestima pode ser vista enquanto os desenhos, os pormenores que cada peça tem e por fim, a imagem global que temos de nós próprios resulta da boa ou má consolidação da nossa auto-estima e auto-conceito.

Quando uma criança fala sobre autoestima refere que para a sentirem têm de se sentir amados, pertencerem a uma família e que esta os valoriza. A autoestima também se constrói mediante o encorajamento e o apoio dos pais ou agentes educativos em diversos momentos, especialmente quando a criança sente dificuldade em superar um obstáculo ou alcançar um determinado objetivo. O apoio da família é essencial para a construção de uma criança confiante e com mais autoestima.

Como podemos ajudar as crianças (1-8 anos de idade) a desenvolver estes “super-poderes”?

– Demonstre que gosta do seu/sua filho/a de uma maneira espontânea através dos afetos, palavras e gestos (deve fazê-lo com regularidade).

– Proporcione à criança um sentimento de pertença à família e à comunidade em que se encontra. Ajude-o a conhecer melhor a história da sua família, os seus familiares, estar em contacto com práticas típicas e culturais da sua família.

– Promova atividades ou hobbies do interesse do seu/sua filho/a. Não deve forçar uma atividade quando a criança não demonstra curiosidade ou gosto em praticá-la.

– Evite fazer comparações entre os seu filhos e as outras crianças.

– Permita à criança que o ajude nas diversas atividades que costuma realizar dentro ou fora de casa para que se sinta útil e capaz , como por exemplo: meter a mesa, ajudar a lavar a loiça, estender algumas peças de roupa ou fazer a sua própria cama.

– Perante situações de insucesso ou mau comportamento, procure criticar a ação e não a criança. Desta forma, a criança vai entender que agiu erradamente e compreender como deve agir posteriormente.

– Encoraje a criança a resolver problemas ou desafios. Quando o adulto está a apoiar e a ajudar a criança a resolver um determinado problema está a dar-lhe as ferramentas que precisa para conseguir responder naturalmente aos desafios e problemas que terá mais tarde, promovendo a sua autonomia e confiança.

– Celebre, demonstre interesse e orgulho pelas conquistas que a criança vai alcançando independentemente da sua escala de dificuldade. Devemos recordar os seus momentos de sucesso quando a criança está desmotivada ou com baixa auto-estima com o intuito de renovar e restaurar a sua confiança.

De uma forma sucinta, os adultos devem passar tempo de qualidade com a criança, ouvindo-a, ajudando-a a aprender novas coisas e atingir os seus objetivos. A autoestima deve ser promovida nas crianças e ao longo do seu desenvolvimento com o intuito de tornar as crianças mais fortes, mais resilientes, mais autónomas e confiantes.

Ao estarmos a valorizar este processo previne-se a base da saúde mental de qualquer indivíduo. Recordo e homenageio as palavras do Dr. António Coimbra de Matos nas suas aulas académicas: “Quando nos sentimos amados e reconhecidos pelo que somos desde tenra idade, conseguimos amar e ser amados pelos outros”.

A autoestima pode ser encarada como o melhor dos “super-poderes” de qualquer pessoa, pois permite-nos amar e sermos amados.

Joana Fialho, Psicóloga Clínica e colaboradora na Sociedade do Bem

Publicado originalmente em Tribuna Alentejo

PREPARAR UM FILHO PARA A VIDA

Foi no século XIX que surgiu pela primeira vez o conceito de inteligência emocional, numa obra de Charles Darwin – relacionando-o com o desenvolvimento e adaptação da espécie humana ao meio -, mas só na década de 90 do século XX é que o termo se popularizou e passou a ser tema de best-sellers e alvo de debates a vários níveis.

A inteligência emocional e social implica identificar e compreender as próprias emoções e comportamentos, bem como os dos outros, aplicando esse conhecimento em todas as relações. Com base neste pressuposto, Daniel Goleman, escritor, psicólogo, jornalista e consultor americano, fundou em 1995 a CASEL – Collaborative for Academic, Social and Emotional Learning. Esta organização tem como objetivo integrar a aprendizagem emocional e social na educação de todas as crianças, defendendo que esta aprendizagem deve passar pela aquisição e desenvolvimento de cinco competências:

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1 – AUTOCONSCIÊNCIA / AUTOCONHECIMENTO

Tomamos consciência de nós próprios quando nos conhecemos, quando sabemos identificar o que estamos a sentir e que pensamentos estão ligados a essas emoções, quando sabemos quais os nossos pontos fortes, as nossas limitações e como tudo isso afeta a forma como nos expressamos e comportamos.

As crianças sentem dificuldade em exprimirem o que sentem, ou porque não têm vocabulário, ou porque não se conhecem ainda. Podem saber explicar que estão tristes ou felizes mas normalmente sentem dificuldade em traduzir para palavras emoções como a frustração ou a desilusão. Para as ajudarmos a desenvolver esta competência podemos:

– Desenhar um cartaz com expressões faciais, com vista a aumentar o seu vocabulário e ajudar a reconhecer as emoções nos outros;

Pensar em situações positivas e sorrir para a criança logo pela manhã. É praticamente garantido que ela se deixe contagiar pelo nossa energia e boa-disposição;

– Falar sobre as emoções quando as detetamos na criança, perguntando-lhe o que ela está a sentir e levando-a a falar sobre o assunto, ajuda-a a verbalizar o que sente;

– Ajudar a criança a reconhecer os seus pontos fortes, incentivando-a a dedicar-se aos temas pelos quais demonstra interesse. Se uma criança que gosta de pintar puder explorar as tintas, pintar em telas ou participar em ateliers de pintura, ela estará a fortalecer a sua confiança nela própria e nas suas capacidades.

2 – AUTOCONTROLO

O autocontrolo relaciona-se com a capacidade de controlar os comportamentos que são despoletados por certas emoções, ou seja, com a capacidade de gerir as nossas emoções e formas de estar em diferentes situações. Na prática, consiste em sermos capazes de respirar e de nos acalmarmos quando estamos zangados, em vez de gritar. Quem não possui esta competência, está mais suscetível a sentir stresse, ansiedade, irritabilidade ou tristeza.

As crianças que desenvolvem o autocontrolo, conseguem regular o seu comportamento e definir metas para elas próprias. Para as ajudarmos a desenvolver esta competência podemos:

– Ser um exemplo de autocontrolo, utilizando estratégias para nos mantermos calmos à frente da criança, como respirar fundo ou contar até 10;

– Brincar com a criança, inventando cenários que recriem diferentes situações, que impliquem diferentes pontos de vista;

– Incentivar a criança a descobrir a melhor forma para se acalmar e respeitar o seu espaço;

– Evitar emprestar à criança o telemóvel ou o tablet sempre que ela estiver aborrecida, para que ela própria encontre alternativas para se distrair.

3 – CONSCIÊNCIA SOCIAL

Adquirimos consciência social quando somos capazes de compreender e respeitar a perspetiva dos outros, de sentir empatia por pessoas de diferentes origens e culturas e aplicar este conhecimento nas interações com os outros.

As crianças que desenvolvem consciência social são capazes de identificar que efeitos têm as suas ações nos outros. Devemos analisar as nossas atitudes e refletir se estaremos ou não a ser um exemplo para a criança. Para além de modelar o bom comportamento, podemos:

– Conversar sobre as diferentes perspetivas da história de um livro ou de um filme;

– Partilhar valores como a verdade, o respeito e a generosidade e conversar com a criança acerca de questões sociais como o racismo ou desigualdade de género.

4 – COMPETÊNCIAS RELACIONAIS

Ter competências relacionais consiste em sabermos estabelecer e manter relações positivas com os outros, o que significa comunicar de uma forma eficaz, escutar ativamente, cooperar com os outros na resolução de problemas e resolver eventuais conflitos de forma adequada.

Um bom relacionamento com os outros implica comunicar de forma eficaz e cordial e saber trabalhar em equipa, seja enquanto líder ou membro dessa mesma equipa, o que afeta positivamente a vida das pessoas, quer a nível pessoal quer profissional. Para a ajudarmos a desenvolver esta competência podemos:

– Pedir ajuda em pequenas tarefas e ir agradecendo e pedindo por favor, para que aprenda a importância da boa educação no trabalho com os outros;

– Dedicar tempo para ouvir como foi o dia da criança, o que de mais relevante aconteceu na escola. Se for muito evasiva nas respostas podemos usar alguns desbloqueadores de conversa

– Ajudar a criança a encontrar soluções para os seus próprios problemas em vez de lhe sugerir soluções;

– Falar com a criança sobre as suas amizades: quem são os seus amigos, que qualidades procura ela num amigo e de que forma gosta de ser tratada.

5 – TOMADA DE DECISÕES RESPONSÁVEIS

Tomar decisões responsáveis pressupõe saber reconhecer o efeito que as nossas escolhas têm nas nossas vidas e nas dos que rodeiam.

A criança terá de aprender a medir o impacto das suas decisões em si e nos outros. Estas decisões ajudam a desenvolver o sentido de responsabilidade e enfrentar desafios no futuro. Para a ajudarmos a desenvolver esta competência podemos:

– Mostrar que no nosso dia-a-dia também temos escolhas a fazer e partilhar algumas com as crianças, para que nos ajudem a tomar decisões simples;

– Permitir às crianças fazerem pequenas escolhas, como a roupa que vão usar ou a história que lhes vamos ler, para que sintam que têm autonomia;

– Conversar sobre as consequências: Perguntar, por exemplo, à criança como acha que vai estar no dia seguinte escola se não for para a cama àquela hora, permite à criança perceber os efeitos da sua decisão e a forma como pode ser afetada;

– Mostrar que, mesmo que as decisões sejam más, estaremos sempre do seu lado. Para isso, é necessário que as deixemos aprender com os seus próprios erros.

Ao praticarmos estas competências e ao ensinarmos os nossos filhos através do nosso exemplo, estamos a criar condições desde tenra idade para direcionem o seu potencial para a família, para a escola, para a comunidade em que está inserida. Desenvolver estas competências nas crianças, influencia o seu desenvolvimento emocional e social, promovendo a autoestima, a cooperação e favorecendo a interação social. É assim que preparamos os nossos filhos para a vida.

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Susana Pedro, Professora e fundadora da Sociedade do Bem

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Bibliografia:

http://www.casel.org/social-and-emotional-learning/core-competencies/

http://www.webartigos.com/artigos/o-papel-do-educador-no-desenvolvimento-da-inteligencia-emocional-das-criancas-das-series-iniciais-do-ensino-fundamental/30879/

http://www.parentoolkit.com/index.cfm?objectid=4942FBD0-A1C6-11E3-83B90050569A5318

Este Natal vá à Lua!

Amanhã é o grande dia, o dia de Natal, mas hoje é dia de grande azáfama familiar.

As ruas estão cheias de pessoas que se passeiam com sacos numa grande correria tentando salvaguardar que nenhum pormenor fique esquecido. Nada pode falhar! As crianças, essas, já suspiram pela hora em que, desenfreadamente, rasgam os papeis para saber se o Pai Natal lhes deu aquilo que durante um ano lhe pediram.

Para algumas, esta personagem é sempre bem-vinda. É aquele senhor, segundo o meu filho mais velho, de barbas branquinhas, já muito velhinho, de roupa muito quentinha e vermelha e com uns óculos à ponta do nariz que distribui as prendas na noite de Natal. Inevitáveis perguntas surgem agora deste ser que em contínua “fase dos porquês” tenta, de uma maneira assoberbante, perceber o mundo à sua volta: – “Mãe, como é que o Pai Natal chega a todas as casas do mundo só numa noite?”; “Mãe, como é que os meninos que não têm chaminé recebem prendas?”; “Mãe, como é que o Pai Natal, que é tão gordinho, cabe na nossa chaminé?”; “Mãe, como é que o Pai Natal tem fome para comer em todas as casas?”; “Mãe, como é que o Pai Natal não se engana a distribuir as prendas de tantos meninos?”; “Mãe, como é que o Pai Natal tem dinheiro para comprar tantas prendas?” Perguntas às quais confesso ter de ter muita imaginação para lhe responder.

Depois também me dá várias instruções para que, nesta noite, para ele, superexcitante, nada falte: – “Mãe, não nos podemos esquecer do leite e das bolachas para o Pai Natal!”; “Mãe, tens de ter as cenouras para pormos no quintal para as renas”; “Mãe, na noite de natal ninguém pode acender a lareira, se não o Pai Natal não consegue entrar!”

É claro que, como a maioria das crianças, também surge a inevitável vontade de conhecer o Pai Natal e aí, de uma forma meio traquinas, vem a tal questão: – “Mãe, nessa noite podemos ficar a dormir na sala para ver se vemos o Pai Natal chegar?”

Talvez nem todas as crianças vejam o Pai Natal desta forma. Este ano não sei se o meu filho mais novo “caiu de amores” por este senhor, já que foi ele que lhe levou a chupeta, a sua “pê”, o seu consolo. Acho que mesmo se nutrisse alguma simpatia pelo “Natai” – como lhe chama -, no dia em que este lhe tirou o seu bem mais precioso a sua imagem ficou um tanto ou quanto denegrida aos olhos desta criança.
Talvez nem todas as crianças acreditem no Pai Natal, muitas já questionam ser ele a dar as prendas de Natal. Muitos dizem que o Pai Natal é o pai ou a mãe, porque são eles que lhes compram as prendas.

Infelizmente também há crianças que já não acreditam, de todo, na existência do Pai Natal. Muitas são as crianças que, por variadas razões, não têm sequer a oportunidade de acreditar no Pai Natal e na magia desta época festiva.

Acima de tudo acho que o que devemos transmitir às crianças é que o Natal é uma época em que devemos salvaguardar vários valores universais, como o respeito pelo próximo, a solidariedade, a empatia, entre tantos outros igualmente importantes.

Querer fazer os outros felizes devia ser um sentimento constante e sempre presente, a preocupação com o bem-estar dos que nos rodeiam devia fazer parte do nosso dia a dia.
As crianças sabem transmitir estes sentimentos de uma forma única e para ajudar o próximo não impõem limites, nem que tenham de ir até à lua…

 

Vanessa Chinelo, Professora e colaboradora na Sociedade do Bem

Publicado originalmente no Tribuna Alentejo

Medo miudinho, põe-te de fininho

 

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Olheiras, mau humor matinal, horas de sono perdidas, café, pais rabugentos, saqueadores da cama perdida, crianças com mau acordar, entre outras caraterísticas dignas de uma família à beira de um ataque de nervos. Reconhecem este cenário?

Em muitas famílias o sono é um assunto complicado. Porquê? Porque não conseguem dormir uma noite inteira, fazem turnos para ver se a criança está bem ou responder a um pedido de ajuda, não descansam convenientemente, adquirem hábitos desadequados de sono, etc.

Caso não se recordem o que é o sono, recordo-vos que o sono é uma necessidade básica humana e desempenha um papel crucial no processo cognitivo e de aprendizagem (consolidação da memória) , na concentração e no raciocínio. A falta de sono pode prejudicar o estado de alerta, na resolução de problemas, na saúde em geral, no aumento de peso (obesidade), entre outros aspetos.

Qual é muitas vezes o responsável por esta azáfama noturna? O medo… esse inimigo de todas as crianças e pais que tentam passar uma noite descansada.

O medo é uma emoção básica que nos protege, nos alerta e nos faz sofrer. O medo é essencial para a sobrevivência humana. A noção de perigo é muito importante para o ser humano ter o conhecimento das suas limitações. Estamos acostumados a contactar todos os dias com o medo, algumas vezes conseguimos entendê-lo, superá-lo, desafiá-lo ou domá-lo.

Quando somos adultos o medo vive connosco e faz parte do nosso quotidiano e neutralizamo-lo (na maioria das situações), mas para uma criança o medo pode ser um elemento mesmo desestabilizador e limitante do seu dia-a-dia, porque ainda não aprenderam a entendê-lo e a controlá-lo. Além disso, a sua noção de perigo ainda é muito diminuta, pois ainda não têm uma noção apurada da realidade ou da morte, por exemplo.

Na hora de ir dormir o escuro é o melhor amigo dos papões, dos monstros debaixo da cama, das bruxas ou fantasmas que espreitam atrás da porta do armário e do que nos é desconhecido. Face ao medo a criança pede socorro às suas figuras de conforto e de segurança, o pai e a mãe, conhecidos pelas crianças como sendo guerreiros, super-heróis ou samurais na luta contra o medo.

Apesar do acordar atormentado por um grito ou um choro penoso, os pais devem ajudar as crianças nestas alturas em que o medo faz estragos nas noites preciosas de descanso de todos os pais, especialmente nas crianças dos 4 aos 5/6 anos de idade.

Então qual é a solução para as noites mal dormidas? Agarrem numa caneta e anotem as nossas sugestões:

– Proporcionar à criança uma rotina de sono, ou seja, a hora em que a criança se deita deve ser, na maioria, a mesma todos os dias;

– Deve-se respeitar (o quanto possível) as horas de sono adequadas a cada idade;

– Evitar que a criança tenha contacto e interação com dispositivos eletrónicos (televisão, computador ou jogos eletrónicos) 1 a 2 horas antes de deitar, pois podem ser estimular e alternar os padrões de sono.

– Sente-se numa ponta da cama ou sente-se numa cadeira frente à cama do seu filho e leia ou conte uma história delicada e relaxante. Evite, ao máximo, após a leitura deitar-se ao lado do seu filho e que ele adormeça. Porquê? Porque se a criança acordar pode já não estar ao lado dele e isso pode ser um elemento perturbador na consistência e qualidade do sono.

– Se a criança demonstrar interesse procure um objeto que lhe proporcione uma sensação de segurança e conforto, como por exemplo, um peluche ou um boneco. Pode também com a ajuda da criança construir um amuleto para ter ao seu lado na hora de dormir.

– Se a criança tiver entre 8 a 10 anos converse e explique-lhe o que é o medo, crie uma estratégia, reforce a criança a conseguir resolver o seu problema sozinha, uma vez que nesta idade torna-se importante a aquisição e capacitação da sua autonomia.

– Incentive a leitura de livros pedagógicos que ajudam as crianças a combater o medo, como por exemplo, “Pôr o medo a fugir”; “As aventuras da Joana contra o medo”, de Miguel Gonçalves; “Quem tem medo do escuro?” de vários autores; “O gato e o escuro”, de Mia Couto.

– Ter brincadeiras com as crianças desde tenra idade que envolvam o escuro. Pegue numa lanterna e brinque com a criança numa caça ao tesouro no escuro, por exemplo.

O medo consegue prejudicar o nosso bem-estar. Não desvalorize o medo das crianças, mas sim explique-lhe o que é o medo, entenda-o e normalize-o através da sua sensibilidade, brincadeira, conforto e segurança.

Joana Fialho, Psicóloga Clínica e colaboradora na Sociedade do Bem

Publicado originalmente em Tribuna Alentejo

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AS CRIANÇAS TÊM VOZ

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Ainda antes de conseguirem traduzir por palavras as suas emoções, as crianças começam a comunicar e a interagir com o meio envolvente. Com a aquisição e o domínio da linguagem, a forma como comunicam torna-se cada vez mais elaborada e torna-se mais fácil para elas exprimirem o que sentem e pensam – a forma como se percecionam a si e ao mundo -, surpreendendo-nos não raras vezes com as suas observações e considerações. Os temas podem ir desde o lanche que levam para a escola, passando pelos currículos escolares, até à apresentação de soluções para promover um ambiente de paz para toda a Humanidade.

As crianças têm voz.

Desde cedo devemos incentivá-las a não recear ter uma opinião e uma palavra a dizer sobre o mundo que as rodeia. Não devemos educar as crianças pensando somente na pessoa adulta que um dia elas serão. É importante mostrar-lhes que a partilha da sua visão em relação ao (seu) universo é importante e esse caminho deverá ter início ainda antes de as crianças começarem a desenvolver um sentimento de pertença em relação à família, depois à escola e à comunidade.

Se um dos pressupostos dos programas da Sociedade do Bem é dar voz às crianças, no programa “Pela Música” queremos projetar ao máximo essa voz. O ponto de partida foi a Escola e as emoções que as diferentes experiências que estão associadas a este espaço podem criar nelas. Perguntámos às crianças o que desperta nelas diferentes emoções, como a alegria, a raiva ou a vergonha e percebemos que as crianças da turma em que implementámos o programa têm em comum o facto de se sentirem felizes quando estão com os amigos, quando brincam, quando aprendem coisas novas ou quando têm Estudo do Meio… Por outro lado, sentem-se tristes quando não têm ninguém para brincar, quando se sentem humilhadas ou quando têm más notas, zangadas quando lhes batem ou mexem nas suas coisas sem pedir, etc.

Do encontro do que têm em comum, da partilha da visão do que é mais importante para construir uma Escola com um ambiente mais positivo, partimos para a criação de uma música com que todas as crianças se identificassem e cuja letra refletisse não só a forma como se sentem na Escola, mas sobretudo a forma como gostariam de se sentir. Desta forma, cantar a música criada em grupo, permitiu aprofundar laços de amizade e de cumplicidade entre estas crianças, reunidas em torno de uma espécie de hino no qual se reveem e sentem orgulho.

As vozes das crianças, unidas em sintonia para dar sentido às palavras contidas na música, contribui para o seu desenvolvimento pessoal e social. A música, para além de reforçar os laços que unem estas crianças, cria espaço para a compreensão das situações que todas elas, em maior ou em menor grau, vivem no dia a dia.

A nossa voz é um instrumento poderoso.

Se estiver aliada à linguagem universal que é a música, maior será o seu poder e alcance para transformar o mundo. Deixemos as crianças terem a sua própria voz e transmitir as suas ideias para caminharmos para a construção de um mundo melhor. Temos muito a aprender com elas.

Vídeo do 1.º Ensaio da Canção da Turma: “Espalhar Alegria”

Agradecimento especial ao Mentor/Heartbuilder Manuel Guerra

https://www.facebook.com/sociedadedobem.org/videos/516447081864857/

Susana Pedro, professora e fundadora da Sociedade do Bem

Publicado originalmente em Tribuna Alentejo

TPC – Trabalhos para (des)complicar

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Os Trabalhos Para Casa (TPC) são, para muitos pais, a maior e mais complicada tarefa de fazer com os filhos. Não pretendo, de todo, defender ou denegrir a importância dos TPC, não estou a escrever com esse propósito, até porque, enquanto mãe e professora penso conseguir visualizar os dois lados.

Se por um lado, os TPC, com conta peso e medida, podem ser uma grande mais-valia para os alunos – uma forma de complementar o seu estudo, uma forma de consolidar as competências e aprendizagens adquiridas em contexto sala de aula, uma forma de os ajudar e ensinar a estudar, uma maneira de os responsabilizar e até mesmo um meio de ligação entre casa (família) e escola. Por outro lado, quando em excesso poderão ser prejudiciais.

As crianças passam o dia todo na escola, têm um horário letivo bastante preenchido. São muitos os que depois da escola ainda têm as suas atividades de lazer, na minha opinião também bastante importantes, como o futebol, natação, ballet, entre outras. Quando chegam a casa já é ao final do dia, depois conciliar banhos, jantar e a realização dos TPC, pode tornar-se uma verdadeira dor de cabeça para todos.

Quando vão fazer os TPC já os fazem sem qualquer vontade, sem qualquer atenção, concentração ou motivação, o que faz com que estes se transformem num pesadelo e causa de muitas discussões familiares. Já para não falar da questão de muitos pais não terem habilitações académicas e conhecimentos para ajudar os filhos. Aí o drama é ainda maior. Chega a tornar-se frustrante para muitos pais não terem a capacidade de ajudar os filhos e para os filhos é quase incompreensível que os pais não os consigam ajudar nesta tarefa.

É nesse sentido que pretendo ajudar, dando algumas dicas para que a hora TPC seja um momento tranquilo para pais e filhos:

– Comecemos pelo espaço onde são realizados os TPC: Deve ser um espaço da casa com tranquilidade em que o seu filho não seja incomodado, um espaço com luz natural ou boa iluminação e deverá ser sempre o mesmo, para que a criança se comece a habituar sempre a este local;

– A criança deve estar confortável: Ter uma mesa espaçosa e uma cadeira adequada ao seu tamanho;

– Ter fácil acesso ao material que necessita para a realização dos TPC (livros, lápis, canetas, borracha, entre outros) evitando estar constantemente a levantar-se, para não se dispersar;

– Neste local não deve existir televisão, rádio ou computador (ou pelo menos não estarem ligados), para que o seu filho não se distraia;

– Tente que a criança realize os TPC sempre à mesma hora, isso facilitará os hábitos de estudo e a gestão de tempo;

– Não permita que o seu filho inicie os TPC assim chega da escola. Faça uma pausa, um pequeno lanche, deixe que a criança descanse um pouco;

– Deve estar por perto, mas tente não interferir na realização dos TPC do seu filho. Espere que seja ele a pedir a sua ajuda, poderá ser uma tarefa mais simples em que o seu filho não necessite de ajuda ou, se for uma tarefa mais complicada, incentive-o primeiro a tentar resolver sozinho e, só se ele não for capaz, deverá ajudá-lo;

– No caso de ter mais de um filho em idade escolar, não os coloque ao mesmo tempo, ou pelo menos, no mesmo espaço a realizar os TPC, pois haverá sempre tendência a conversas paralelas;

– Quando existem mais filhos e só um está na escola, não deixe que o mais novo se aperceba que o irmão está a fazer os TPC, ou então, arranje maneira de o mais novo estar entretido para não incomodar o mais velho;

– Não obrigue o seu filho a estar muito tempo a realizar os TPC. Não é, de todo produtivo. Se forem muitos ou uma tarefa muito demorada, faça uma pequena pausa, ele descansa e quando voltar irá estar mais concentrado.

São apenas dicas, que na teoria todas são viáveis, mas sei o quanto muitas vezes é difícil colocá-las em prática. Cada caso é um caso, cada família é uma família e cada criança é única. Acima de tudo tente sempre que a realização dos TPC não interfira na relação com o seu filho.

Vanessa Chinelo, Professora e colaboradora na Sociedade do Bem

 Publicado originalmente em Tribuna Alentejo

Imagem: https://criancasatortoeadireitos.files.wordpress.com/2015/08/pixbay.jpg

O mundo precisa de abraçar mais Julias

“O sol nasceu… Como está lindo o céu… Lá vou eu! Vem tu daí também… Aprender como se vai…. até a Rua Sésamo. Vem brincar… Traz um amigo teu… E ao chegar tu vais poder também…Ensinar como se vai até a Rua Sésamo….Até a Rua Sésamo”*

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Quantos de nós não gostávamos de ver um desenho animado ou um programa infantil que era um bem mais valioso para a nossa educação? Conhece a música? É a Rua Sésamo. Muitas crianças, e até mesmo adultos, como pais e/ou agentes educativos cresceram com as suas lições em tom de brincadeira, com imenso sentido de humor e partilha de histórias.

Este programa infantil que tem como objetivo entreter as crianças de forma pedagógica, através de várias apresentações lúdicas e alusivas à aprendizagem escolar como o alfabeto, os números, as cores, as formas e abordagem de temas variados. Além disso, estas aprendizagens também foram enriquecidas com emoções partilhadas entre as personagens, brincadeiras, o diálogo, hábitos de higiene, hábitos alimentares adequados, entre outras atividades ligadas ao quotidiano.

Ao longo deste programa que enriqueceu a infância de muita gente (inclusive a minha) personagens icónicas e marcantes como o Poupas, o Sapo Cocas, o Monstro das Bolachas, o Egas, o Becas, o Ferrão, o Gualter, o Conde de Contar, entre outras entraram nas nossas casas e bem cedo ensinaram-nos como aprender pode ser divertido e importante para a nossa vida.

Recentemente, a Rua Sésamo atualizou-se e para além das aprendizagens pedagógicas junto dos mais novos, implementou uma nova modalidade dos seus episódios denominado de Sesame Workshop: See Amazing in All Children (Workshop da Sésamo: Ver o fantástico em todas as crianças).

A See Amazing in All Children tem como objetivo mostrar “o que todas as crianças têm em comum e não as suas diferenças. Crianças com autismo partilham a alegria pelas brincadeiras, por terem amigos e fazerem parte de um grupo” (Jeanette Betancourt, Vice-presidente da Sesame Workshop). Com o intuito de alertar, sensibilizar e informar o público mais jovem e as famílias, a Rua Sésamo aumentou a sua família e criou uma nova personagem chamada Julia.

A Julia é uma menina alegre, com olhos verdes e cabelo laranja. O que é que a Julia tem de diferente para aparecer no programa? É uma criança autista e como qualquer criança gosta de brincar, ter amigos e desenvolver as suas relações interpessoais. O papel que a Julia desempenha é essencial para a informação, sensibilização sobre o autismo e sublinhar um lema: “Todas as crianças são únicas, mesmo nas suas diferenças”.

Assim, as crianças e os adultos podem entender que a criança autista apresenta-se, por vezes, irrequieta, distante perante acontecimentos, grita com facilidade, tem sensibilidade auditiva, tem um menor envolvimento com o que as rodeia, tem dificuldade em expressar as suas emoções ou a comunicar, entre outras caraterísticas inerentes ao autismo.

Este projeto valoriza a diferença como o fator único de cada criança. Jeanette Betancourt salienta que “as crianças com autismo são 5 vezes mais propensas a serem vítimas de bullying. Com uma em cada 68 crianças com autismo, é caso para dizer que é muito bullying”.

O bullying acontece muitas vezes nestes casos (infelizmente) devido ao preconceito, estigma, estereótipos, falta de sessões de sensibilização nos contextos educativos, etc. Na maioria das vezes as crianças não interagem facilmente com crianças autistas pela falta de informação, compreensão do outro e desconhecimento de como lidar com as emoções e comportamentos do outro, sobretudo quando uma criança autista tem um descontrolo emocional.

Pensem comigo: se o bullying geralmente, marca uma criança… imaginem o quão difícil irá ser a socialização das crianças com perturbação quando são vítimas de bullying. As crianças que são consideradas como diferentes têm uma maior probabilidade de serem gozadas ou ostracizadas pelos colegas.

Devido a este facto, na minha opinião, torna-se fundamental a implementação da educação inclusiva, pois só assim conseguirmos transmitir e ensinar às crianças que ser diferente não é mau, nem se é menos ou mais, simplesmente a diferença faz parte de nós. Porquê? Porque todos nós somos iguais, na medida em que somos todos seres humanos, mas cada um é uma pessoa única, com as suas caraterísticas, qualidade e defeitos.

A Rua Sésamo quis com este projeto transmitir aos mais novos isso mesmo, ou seja, apesar da Julia ser autista, é criança e, como qualquer criança, gosta de brincar, socializar e aprender, mesmo com as suas dificuldades. Através deste prisma estamos a criar crianças mais conscientes e mais empáticas na relação com o outro.

Bem-vinda, Julia.

Joana Fialho, Psicóloga Clínica e colaboradora na Sociedade do Bem

*Letra da música de abertura portuguesa da Rua Sésamo

Publicado originalmente em Tribuna Alentejo

Imagem: www.slantnews.com

QUANDO OS FINS DE SEMANA NÃO TÊM FIM!

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Finalmente é sexta-feira! Esta é uma frase que, a princípio, todos gostamos de ouvir, a não ser que comecemos a pensar que a sexta-feira é aquele dia que antecede o fim de semana caótico com as crianças todo o dia em casa aos gritos, ou a liderarem a melhor posição no sofá e a tomarem conta da televisão.

As manhãs de sábado que pensámos aproveitar para ficar até mais tarde na cama, subitamente, são interrompidas por uns passinhos que se fazem soar ao longo de um corredor e a nossa cama passa a ter capacidade para acolher um batalhão. E começa mais uma correria de fazer camas, tomar banhos, vestir, preparar os pequenos almoços e toda uma panóplia de tarefas que só conseguimos fazer neste dia, como por exemplo: pôr roupa a lavar, limpar o pó, aspirar a casa, enfim… mil e uma coisas que nos dão imenso prazer!

E quando olhamos para o relógio, que não devia ser uma preocupação neste dia, supostamente dia de descanso, já estamos atrasados na preparação do almoço, sim do almoço pois, por ser fim de semana, também se faz por casa.

E a tarde já lá vem, as limpezas continuam e as crianças, essas, estarão ou a desarrumar qualquer coisa, ou a brigarem porque um quer ver um programa e o outro quer ver outro, ou porque um quer um brinquedo que o outro tem, uma tragédia! Não sei o que é pior! Os gritos deles ou os nossos a gritar com eles – estejam quietos, estejam sossegados, vão ficar de castigo. Ameaças várias que na maioria das vezes não surtem no resultado pretendido – a calma e a tranquilidade de um fim de semana tão desejado.

A noite não tarda e quando damos por nós estamos mais cansados do que num outro dia qualquer da semana, desejosos que os miúdos vão para a cama e que nós, finalmente possamos desfrutar daquele lugar do sofá que em tempos era só nosso, não para ver televisão, mas talvez para adormecer ou “descansar de olhos fechados” como muitas vezes fazemos questão de referir.

Finalmente domingo! Para muitos pais é “O” dia que antecede a tão esperada segunda-feira. É “O” dia em que preparamos o começo de mais uma semana, é “O” dia em que preparamos os bibes, as mochilas, organizamos as roupas, ou seja, é “O” dia que mais uma vez fazemos mil e uma coisas que nos deixam completamente esbaforidos.

Mas será que os fins de semana têm de ser assim? Claro que não! Devemos ver os fins de semana como a verdadeira oportunidade de estar com os nossos filhos, de conhecer os nossos filhos, de passar momentos agradáveis com eles, de descansar um pouco da correria semanal. Como? Simples! Experimente as dicas que aqui lhe deixo:

. coloque a roupa para lavar sexta-feira à noite e estenda-a (será um esforço extra, mas vai ver que compensa);

. a limpeza da casa pode ser distribuída pelos dias da semana, por exemplo – segunda-feira limpa a sala, terça-feira a cozinha, quarta-feira limpa os quartos, vais ver que não lhe custa tanto a si e ao sábado de manhã não terá de correr quase meia maratona para fazer todas estas tarefas.

Fazendo só isto vai ver que o seu fim de semana será muito mais tranquilo e prazeroso. E como usufruir de um fim de semana tranquilo em família? Há inúmeras coisas que pode fazer para se divertir com os mais novos. Veja o que lhe sugiro:

  • Se o tempo estiver agradável aproveite para sair de casa de manhã com as crianças, pode dar um passeio num parque local e, até aproveitar e almoçar por lá, faça um piquenique, os seus filhos vão certamente adorar a ideia;
  • Apanhem folhas caídas para fazer uma colagem, fica muito giro na decoração da casa e é económico;
  • Aproveitem a tarde para fazer uma visita de interesse cultural, visite a sua cidade como se nunca lá estivesse estado, como se fosse um turista e vai ficar surpreendido com o que vai descobrir;
  • É tempo de castanhas, compre castanhas e saboreiem-nas juntos;
  • Visitem um museu ou uma exposição local;
  • Visitem uma biblioteca e aqui até poderá requisitar um livro para ler em casa com os seus filhos;
  • Experimentem um meio de transporte diferente, um passeio de barco, um passeio de comboio ou até mesmo um passeio num autocarro panorâmico, vão fazer certamente sucesso junto dos mais novos;
  • Poderá optar por fazer uma sessão de cinema em casa com direito a pipocas;
  • Faça um bolo com os seus filhos, eles vão gostar de pesar os ingredientes e de misturá-los;
  • Monte um puzzle com os pequenos, ou faça um jogo que eles tenham escolhido;
  • A preparação do jantar pode ser feita em conjunto, diga aos seus filhos que se trata de um jantar especial, em que precisará da ajuda deles. Coloque uma toalha diferente, peça-lhes ajuda para pôr a mesa, vão gostar de ajudar e não fará tudo sozinha;
  • Ao deitar pode ler-lhes uma história;

Como vê há inúmeras coisas que pode fazer em família sem qualquer tipo de custo. O tempo em família é tão pouco que o devemos aproveitar da melhor maneira.

Vanessa Chinelo, Professora e colaboradora na Sociedade do Bem

Publicado originalmente em Tribuna Alentejo

 Imagem: www.heidichowenphotography.com

A ARTE DE BRINCAR

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No passado dia 10 de outubro celebrou-se uma data especial: o Dia Mundial da Saúde Mental, celebração anual da educação, consciencialização e defesa da saúde mental. Nos dias que decorrem cada vez mais observamos crianças apáticas, desligadas do entusiamo do começo das suas vidas, menos exploradoras e aventureiras.

Em Portugal, denota-se um aumento de crianças e adolescentes com sintomatologia depressiva, perturbações ao nível da hiperatividade, do défice de atenção, do comportamento desafiante ou desviante. Na origem desta problemática estão fatores como a educação, as políticas de saúde, pais menos envolvidos na vida educativa e pessoal das crianças, entre outros fatores relevantes.

Gostava de vos contar uma história baseada um pouco nesta temática. Espero que gostem e que retirem uma mensagem dela:

Um assobio soava pela rua. Está na hora, pensava, acompanhada de um sorriso. Agarrava na minha mala repleta de brinquedos (berlindes, cromos, cadernetas, cartões feitos por nós das personagens favoritas, lego, playmobil, barbies e outras traquitanas) e saia porta a fora a correr. “Joana, não saias da rua, quero estar a ver-vos!”, dizia a minha mãe na varanda.

De frente para a minha casa brincava com as minhas amigas de infância. Eramos seis raparigas e cada uma com uma personalidade mais diferente da outra. Ovque tínhamos em comum? A amizade que nutríamos umas pelas outras, muitos sonhos e muita imaginação.

O que fazíamos antes da Era Tecnológica?

Inventávamos coisas para nos divertimos. O quê (perguntam vocês)? Fazíamos coreografias dos Backstreet Boys, cada uma escolhia quem queria ser… uma Spice Girls ou uma das Navegante da Lua, entre outras brincadeiras que nos enriqueciam.

Escrevíamos cartas que colocávamos escondidas nos quintais umas das outras. Uma vez uma de nós quase ficou com uma carta ilegível porque um bichinho decidiu almoçar as nossas palavras. Enfim, era a nossa infância naqueles dias… interativa, dinâmica, criativa, improvisada… mas repleta de vida.

Não vos vou mentir. Também gosto de jogos eletrónicos. Quando tive a minha única consola, a Sega Mega Drive, também era capaz de ficar horas infinitas a jogar Super Mário ou Sonic: The hedgehog. Mas a diferença reside na felicidade verdadeira que era estar com amigos e amigas a brincar e a rir.

Não vos quero parecer velha ou antiquada mas gostava de vos dar a conhecer o meu ponto de vista sobre os jogos informáticos, de consola ou os que encontramos em dispositivos móveis, que são bons e úteis para as crianças, sobretudo para o aumento da capacidade de resolução de problemas e no desenvolvimento do raciocínio matemático, por exemplo.

Contudo, pode atrapalhar o processo imagético das crianças, ou seja, diminui a capacidade imaginativa das crianças. É claro que existem imensas crianças que jogam e que são muito criativas e imaginativas, sem qualquer problema. A questão é que existem muitas crianças que o desenvolvimento da imaginação seria uma ferramenta muito importante a qual só é adquirida através do brincar.

É claro que não podemos falar em brincar e imaginação sem nos lembrarmos de bandas desenhadas como o Calvin and Hobbes ou o Charlie Brown. Recordo com carinho as palavras de um professor universitário que marcou o meu percurso académico, o Emílio Salgueiro : “Se querem conhecer o verdadeiro mundo da criança têm de ler as bandas desenhadas do Calvin and Hobbes ou do Charlie Brown”.

Afinal de contas… quem não teve um amigo imaginário? Quem não teve o seu peluche favorito e que o levava para todo o lado? Quem não tinha medo do desconhecido? Do “papão” e do escuro? Quem não fez de conta de que era a sua personagem de desenho animado favorito? Quem não achava o mundo dos adultos uma verdadeira seca? Quem não pulava de um sofá para o outro com entusiamo e medo ao mesmo tempo ao imaginar que tinha lava no chão?

Brincar não é uma atividade extracurricular ou que se deva praticar apenas ao fim de semana. Imagine o que seria a sua infância sem brincar. Sabia que o brincar tem uma forte influência no Desenvolvimento Global da Criança?

Brincar promove o otimismo, a curiosidade, estimula a espontaneidade e reforça o sistema imunitário. Além disso, brincar proporciona ao ser humano adquirir competências sociais, uma vez que suscita a integração com os outros e com o meio social, promove e fortalece os relacionamentos , ajuda na construção da personalidade, favorece a criação de um sentido de humor saudável, aceitação de regras e o prazer de construir histórias em grupo. Por outras palavras, brincar permite à criança vivenciar, interagir, recriar situações do quotidiano, imitar, imaginar, exprimir-se, aprender, a descobrir-se a si própria, apreender a realidade, etc.

Se pensarmos neste tema, nós, adultos, percebemos que o brincar consiste, igualmente, numa atividade que devíamos promover mais entre nós. Porquê? Não é suposto sermos sérios e metódicos? Sim, mas as atividades de lazer e descontração são muito importantes e não devem ser negligenciadas. Quando estamos bem dispostos e “brincamos” ativamos o nosso pensamento e memória, somos mais criativos e sensíveis ao contacto com o outro e desenvolvemos mais sentimentos de solidariedade e altruísmo.

Lembre-se: Brincar é investir no seu bem-estar e na sua saúde mental. As crianças que brincam alegremente no seu dia-a-dia serão mais tarde adultos saudáveis e felizes. Promova a brincadeira.

Joana Fialho, Psicóloga Clínica e colaboradora na Sociedade do Bem

Publicado originalmente em Tribuna Alentejo

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