Quando for grande vou ser…

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“Mãe! Quero ser astronauta!” – Disse-me o meu filho mais velho um dia destes.

Astronauta? Questionei!

“Sim, acho que deve ser giro andar no espaço com aqueles fatos especiais e com aqueles capacetes enormes. Deve ser giro poder viajar numa nave, ou num foguetão, ver a terra lá de cima, conhecer outros planetas, descobrir coisas que aqui ainda ninguém sabe”. – Respondeu-me.

Percebi e partilhei do seu entusiasmo. Sim, aos olhos de uma criança, e não só, ser astronauta deve ser fantástico. Não me fascina tanto o fato ou o capacete enorme, até acho que deve ser um pouco incómodo, mas a imagem da terra vista do espaço, deve ser realmente fenomenal. Nunca pensei muito nesta profissão, quando era pequena ambicionava outras, mais femininas, claro está, como por exemplo: cantora, bailarina, cabeleireira…

O meu filho nunca antes tinha comentado comigo nada do género, para ser sincera eu também nunca lhe tinha perguntado.

Já tinha dado por mim, algumas vezes, a pensar no que se tornariam profissionalmente os meus filhos quando crescessem. Acho que já todas as mães pensaram. É inevitável!

Dei por mim a imaginar que ele seria chefe de cozinha, pois adora ajudar-me na preparação das refeições.

Dei por mim a imaginar que ele seria dentista, pelo à vontade e gosto que mostra nas vezes que vai ao consultório.

Imaginei-o como bombeiro pela a admiração que olha sempre que nos cruzamos com algum.

Talvez polícia. Porque sim, porque muitos miúdos querem ser polícias.

Veterinário, também encaixa na perfeição pois adora e sabe o nome de todos os animais.

Cientista ou investigador, pela curiosidade que tem por tudo. Pelos seus porquês!

Mas a que tem a minha preferência é pediatra. Sim imaginei-o pediatra, não por alguma razão em especial, mas pelo menos, eu não sofria tanto pelos meus netos estarem doentes como sofro com os meus filhos.

Para ser sincera não me importo muito com a profissão que o meu filho mais velho terá. Para mim o importante é que ele goste do que faça.

Que ele tenha a possibilidade de escolha. A possibilidade que os meus pais também me deram a mim. E escolha com a certeza de que aquilo sim, o realiza, pois mais importante do que o salário mensal, mais importante que o estatuto que lhe dará uma profissão, é que sinta que é feliz, que sinta vontade de se levantar todas as manhãs para ir trabalhar e que chegue a casa no final do dia sempre com um sorriso estampado no rosto.

Acho que não nos devemos importar muito com a futura profissão dos nossos filhos, pelo menos quando ainda são pequenos, acho que o importante é conseguirmos transmitir-lhes que independentemente das suas escolhas terão sempre o apoio incondicional dos pais.

Eu aqui estarei, na devida altura, na profissão de mãe, de amiga, de conselheira, sempre pronta a apoiar as suas decisões.

Vanessa Chinelo, Professora e Colaboradora da Sociedade do Bem

Imagem daqui.

Crónica publicada originalmente em Tribuna Alentejo.

 

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Tornar a Primavera memorável

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Começou a Primavera!

Não há melhor altura do ano que esta para sair com as crianças e fazer todas as atividades que não pudemos fazer durante o longo período de hibernação a que estivemos sujeitos, entre gorros, cachecóis e camisolas interiores… A temperatura começa a subir, os dias são maiores, o sol aparece mais vezes, as folhas e as flores começam a despontar… e não são só as crianças que ficam mais ativas. Também nos adultos ficam com vontade de sair do casulo!

A Primavera é a altura ideal para explorar a natureza e descobrir algo que nos surpreenda ou inspire. A nós e às crianças. O sofá da sala, as brincadeiras dentro de casa, a televisão… são facilmente substituídos por corridas lá fora, por andar de bicicleta (uma oportunidade para as crianças mais pequenas aprenderem a andar sem as rodas de apoio), jogar à bola no parque, ou simplesmente, redescobrir os tons de verde.

Realizar atividades ao ar livre e contactar com a natureza, aproxima as crianças da fauna, da flora e cria novos laços emocionais e sociais com o mundo ao redor. Há inúmeras atividades que podemos fazer com elas.

Uma sugestão de uma atividade muito simples é explorar insetos, folhas e flores que encontramos na natureza. As crianças podem ir anotando ou desenhando tudo o que viram: Que insetos encontraram mais? Que árvores viram? São árvores de fruto? Que frutos dão? São mistérios que elas estão a desvendar, como verdadeiros detetives ou exploradores da natureza, podendo desta forma aprender (e tanto!) sobre o mundo que está logo ali, ao abrir a porta da rua.

Ao chegar a casa, as crianças podem dar continuidade às aprendizagens, “enchendo” o frasco de vidro com as imagens que observaram e retiveram durante o dia. Uma joaninha, borboletas, formigas? Flores, folhas, nuvens?

Download de folha com frasco de vidro (para imprimir)

Este tipo de brincadeiras desperta a curiosidade das crianças, que sentem necessidade de fazer perguntas cada vez mais profundas acerca do mundo. Brincar e explorar irá tornar esta Primavera memorável… quase tão memorável como o que as crianças irão aprender com todas as maravilhas que esta estação do ano traz.

Susana Pedro, Professora e Fundadora da Sociedade do Bem

Publicado originalmente em Tribuna Alentejo

Imagem de capa daqui.

 

Apertar os nossos laços com as crianças

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De acordo com o dicionário, responsabilidade diz respeito à obrigação que temos de responder pelas nossas próprias ações, assim como pelas ações dos outros. Para Emmanuel Levinas (filósofo), é o eu que suporta outrem, que dele é responsável, pois só assim poderemos apertar os nossos laços enquanto seres humanos.

Neste contexto de responsabilidade comum, surgem cada vez mais problemas que exigem a nossa atenção e compromisso. Numa sociedade exigente e complexa, cabe aos adultos transmitir aos mais novos a importância da responsabilidade para o bem estar comum.

Através do exemplo e do estabelecimento de objetivos e compromissos mútuos podemos fomentar nas crianças esta ideia de responsabilidade pelas suas próprias ações, pelas ações dos outros e por tudo aquilo que será o nosso legado para as gerações futuras.

Em casa, os adultos podem atribuir algumas tarefas simples como forma de começar a responsabilizar a criança para tarefas que dela dependerão. De acordo com a idade e maturidade, fazer a cama, arrumar os brinquedos, ajudar a arrumar a mesa antes e depois das refeições, verificar se o cão ainda tem água ou comida, se o lixo doméstico está a ser separado corretamente, podem ser exemplos de responsabilidades diárias que ajudam a criança a comprometer-se com os outros e a ser responsável.

Desde as questões mais triviais do nosso quotidiano, até à problemática da degradação do planeta, das questões de desigualdade social e discriminição ou da violência sob todas a suas formas, temos o dever de começar a responsabilizar as crianças para a distinção entre uma boa ação e uma má ação, o que pode comprometer a prática do bem e da justiça num determinado contexto.

Separar o lixo doméstico; não deitar lixo nas ruas, florestas e rios; gastar menos água; poupar na eletricidade; ajudar o colega que tem dificuldades em realizar alguma tarefa; não fazer troça de ninguém; respeitar as diferenças; ajudar os avós nas atividades diárias; ouvir os mais velhos; ser solidário com os que mais precisam, são exemplos de condutas responsáveis que podem fazer toda a diferença numa sociedade cada vez mais desigual.

Somos todos responsáveis pela educação dos mais novos e amanhã serão os mais novos os responsáveis pela educação das próximas gerações! O nosso contributo individual deve tornar-se coletivo, motivando uma rede de boas práticas que promovam uma cidadania responsável que pode mudar o mundo!

Somos todos responsáveis…

Lucélia Rosado, Formadora e Colaboradora da Sociedade do Bem

Publicado originalmente em Tribuna Alentejo

Imagem de capa daqui.

 

Porque rir é o melhor remédio!

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“Apesar do hospital não ser um lugar para rir, o Riso deve ter espaço no hospital”

– Sérgio Claramunt

Fazer RIR não é fácil, mas conheci duas pessoas muito especiais que o fazem com muita facilidade: o Dr. Alta-Mente e o Dr. Pessoa Pessoa. Estes dois doutores palhaços são especializados na arte de fazer RIR e, segundo eles, o RISO é um elemento muito importante no processo de tratamento das doenças. Desencadeia uma série de reações fisiológicas que têm efeitos imediatos no paciente – alívio da tensão, diminuição de stress e ansiedade, reforço do sistema imunitário, relaxamento da tensão muscular e diminuição da dor – que melhoram a situação do internado diminuindo a rejeição dos medicamentos e seus efeitos colaterais.

E onde os conheci? Num sítio bastante improvável para conhecer palhaços! No hospital.

Estes doutores palhaços têm como missão contribuir para a melhoria da qualidade de vida das crianças internadas e dos seus familiares, minimizando e aliviando o drama do ambiente hospitalar através da promoção da alegria e brincadeira, do afeto e do calor humano.

E foi isso mesmo que fizeram naquela manhã em que eu esperava ansiosa pela cirurgia do meu filho mais novo. Mesmo não sendo nada complicado (segundo os médicos), pois tratava-se apenas de uma cirurgia aos adenoides e amígdalas, fiquei um pouco nervosa. Coisas de mães! E como mãe só pensava: Será que vai demorar a acordar depois da operação? Como irá acordar? Irá sentir muitas dores? Como será que vai passar as primeiras horas?

Para além disso preocupava-me o facto do rapaz, apenas com três anos, ter já o seu temperamento vincado e como gosta BASTANTE de comer, como lhe iria eu explicar que não poderia comer nada nem beber até ao momento da operação? Ou como lhe poderia eu explicar o que estávamos ali a fazer ou ao que ele iria ser submetido? Com o passar do tempo, não só as crianças, mas também quem os acompanha, e falo por mim, começam a mostrar alguma impaciência, acabamos por estar muito tempo à espera e a ansiedade vai aumentando.

Felizmente naquela manhã estavam lá os doutores palhaços que, a cada quarto em que entravam faziam soar muitas gargalhadas. São pessoas extraordinárias que depositam uma enorme paixão no que fazem. Pessoas que para além das suas vidas conseguem dedicar algum tempo a melhorar a vida dos outros. A melhorar a vida das crianças que estão em internamento, crianças que a cada palavra destes palhaços respondem com um brilho no olhar, que a cada nova brincadeira esquecem por breves momentos o sítio onde estão, que a cada piada que os palhaços dizem RIEM, mas RIEM com verdadeira vontade, como se estes doutores palhaços, nos breves momentos que ali estão, tivessem o poder de os transportar para um mundo imaginário que por instantes se torna mágico.

E porque RIR é algo que podemos fazer sempre que nos apetece sem ter de o justificar a alguém. Porque RIR, está provado, só traz benefícios. Porque RIR desenvolve a o crescimento pessoal e aumenta a auto estima e a confiança convido-vos a conhecer não só o Dr. Alta-Mente e o Dr. Pessoa Pessoa, mas também todos os outros doutores palhaços que fazem parte desta fantástica equipa do Remédios do Riso (http://remediosdoriso.pt/wp/)

Por Vanessa Chinelo, Professora e Colaboradora da Sociedade do Bem

Publicado originalmente em  Tribuna Alentejo

Imagem  daqui.

 

Como encontrar as borboletas da motivação?

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Canetas, cadernos, trabalhos, livros, fichas, TPC´S, mochilas com ou sem rodinhas, peso nas costas, sono, aulas, estudar, dormir, explicações, atividades extracurriculares… Já está cansado/a o suficiente desta enumeração?

As crianças e jovens enfrentam todos os dias desafios constantes no que diz respeito a alcançar as metas curriculares ou as expetativas dos pais e dos seus professores. Todos os dias muitos jovens colocam-me questões, como por exemplo: “E eu? Onde estou eu? O que eu quero? Do que eu gosto?” São estas perguntas que ecoam na mente das crianças. O que sentem quando pensam sobre estes pontos de interrogação dos vossos filhos?

Coloquem um adulto a fazer algo com que eles não se identifiquem ou não consigam sentir qualquer prazer ou ganho pessoal a fazê-lo… Vai correr mal, não é? É daquelas verdades matemáticas, exatas e precisas. Agora imaginem uma criança… não vai mesmo correr bem, pois não?

As crianças dos 6 aos 12 anos e especialmente os adolescentes, encontram-se numa odisseia de sensações, de pensamentos, de ideias em construção, a descobrir se gostam mais de uma coisa em detrimento de outra, a encontrarem o seu lugar neste grande mundo. Depois os adultos, que geralmente são pais ou educadores, dizem: “Tens de tirar nota 5 a tudo”, “Tens de ser o melhor aluno da turma”, “Tens de perceber que sem estudos não vais a lado nenhum” e por aí fora. Apesar de pensarem que estão a ajudar, a fazer aquela pressão de motivação a jacto ou a agitar a consciência dos filhos… saibam que isso não vai modificar absolutamente… nada (ou se mudar chama-se Motivação Extrínseca).

É claro que podemos ir motivando os nossos filhos, mas nunca de uma forma autoritária como os exemplos que dei atrás… façam-nos refletir o porquê de estudar, o quão é importante para conseguirem alcançar os seus objetivos a curto-prazo… sim, leram bem, a curto-prazo. Se muitas vezes os próprios adultos ainda não sabem muito bem o que escolher na sua vida pessoal e profissional, temos de ser compreensivos com a construção de objetivos de vida dos nossos filhos.

Porquê? Porque se hoje gostavam de estudar para serem arquitetos daqui a algum tempo podem descobrir que o seu futuro está delineado para serem professores, por exemplo. Pelo menos de três em três meses, sensivelmente, fale com o seu filho sobre os seus interesses e descubra quais as descobertas que ele fez, seja a nível escolar, nas suas atividades extracurriculares ou noutros contextos.

Como identificar uma criança que não está motivada?

– Escolhem atividades que,na maioria das vezes, são muito facéis de concretizar;

– Precisam de muito incentivo, pela parte dos adultos, para começarem uma determinada tarefa;

– Demonstram o mínimo de esforço possivel;

– Apresentam uma atitude negativa ou apática em relação à aprendizagem e trabalho escolar;

– Desistem facilmente face uma determinada dificuldade sentida na tarefa que estão a realizar;

– Não terminam as tarefas.

Como podemos motivar as nossas crianças e jovens?

Aqui ficam algumas estratégias para ajudar na motivação face ao estudo:

– A estratégia mais importante consiste em adaptar as suas expetativas às capacidades, particularidades , gostos e competências do seu filho. Conheça-o;

– Não critique a criança. Comunique de forma calma e honesta com seu filho sobre os seus interesses, competências. Também é importante falar sobre as atividades ou tarefas onde a criança deposita um menor interesse e atenção. Compartilhe as suas opiniões tendo como ponto de partilha as atitudes e comportamentos do seu filho. Por exemplo: Se o seu filho não gosta de Matemática, tente entender o por quê de ele não gostar. Muitas vezes as crianças não sabem que gostam de uma determinada disciplina até a entenderem ou dominarem as matérias e se sentirem capazes e confiantes face a essa disciplina;

– Ajude a criança a delinear os seus objetivos ou metas. Sentem-se lado a lado, num dia mais livre e com ambiente calmo e sem pressas, comuniquem e coloque em papel os objetivos delineados pelo seu filho. Está comprovado que quando escrevermos objetivos existe um maior propensão para a realização eficaz dos mesmos. Coloque a folha dos objetivos num local visível e onde possa ser observado muitas vezes, como por exemplo, no frigorífico;

– Evite castigos ou recompensas (podem funcionar bem como motivação extrínseca, mas a longo-prazo não são rentáveis nem em manutenção ou promoção de autonomia ou autoconfiança). Incentive-o a fazer por si mesmo, pelos objetivos delineados, preferencialmente;

– Crie uma rotina de estudo saudável. Marque uma hora para a criança estudar todos os dias. A criança não deve estudar após o regresso da escola, deixe-o descansar, comer, fazer uma atividade prazerosa e depois pode estudar. O estudo deve ser feito durante 30 minutos, seguidos de uma pausa com 10 minutos. Porquê? Porque se fizer dois blocos de estudo de 30 minutos a capacidade de atenção é mantida e existe uma maior eficácia na retenção da matéria estudada;

– Quando o seu filho se mostra frustrado face a alguma determinada tarefa escolar, tente descobrir o porquê, incentive-o a ser autónomo e a não desistir face a adversidades.

Resumidamente… se o seu filho vier da escola e não vier cansado e com um sorriso nos lábios, estranhe. Espero que estas estratégias sejam úteis e agradáveis para vocês conseguirem ajudar os vossos filhos a encontrar aquelas duas borboletas simpáticas que habitam no nosso coração que se chamam “motivação” e “prazer”.

Cultivem o gosto pelo saber nas crianças.

Por Joana Fialho, Psicóloga Clínica e Colaboradora na Sociedade do Bem.

Imagem de capa daqui.

Publicado originalmente em Tribuna Alentejo.

30 atos de Bondade

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Qualquer ato de bondade, por mais pequeno que seja, pode fazer a diferença. Muitas das vezes, foram os gestos mais simples que tiveram para connosco, que acabaram por ditar grandes transformações na nossa vida. Por mudar o nosso olhar. Por moldar a pessoa que somos.

Por outro lado, pensarmos na última vez que tivemos um ato de amabilidade para com os outros, seja para com uma pessoa amiga ou para com uma pessoa estranha, tem também um impacto positivo em nós próprios. Um pouco por todo o mundo vão surgindo alguns projetos que incentivam atos de bondade nas escolas, não só por parte das crianças, como também de toda a comunidade educativa. Estas iniciativas mostram que ensinar as crianças a sentirem-se bem quando colocam um sorriso na cara de alguém, não deve ser uma tarefa exclusiva da família. Também os professores poderão ter, neste aspeto, uma intervenção mais direta e envolver a(s) sua(s) turma(s) ou até mesmo toda a escola e através de estratégias bem simples, que podem ter a duração de um ano, um mês, uma semana ou até um dia.

Os projetos Random Acts of Kindness (com representação em 310 países), Love is the New Currency (Inglaterra) ou Ripple Kindness (Austrália) partilham o objetivo de querer que as pessoas sintam o impacto que os seus gestos de bondade para com os outros podem ter nas suas próprias vidas. A começar nas crianças. “Quando colocamos um sorriso na cara de alguém, colocamos um sorriso no nosso próprio coração e são esses sentimentos positivos que nos ajudam a mudar a forma como pensamos, sentimos e comportamos” (Ripple Kindness).

Uma estratégia simples e que pode ser facilmente implementada, seja em contexto familiar ou escolar, é o Desafio da Bondade. O desafio, lançado por muitos destes projetos, consiste em entregar a cada criança (ou expor num local bem visível) uma lista com sugestões de ações simples, que podem influenciar de forma positiva a vida dos que nos rodeiam. Através deste desafio as crianças, os professores ou os pais, tios, avós… são alertados para a importância de tornarmos a vida dos outros um pouco melhor.

Elaborámos uma pesquisa e selecionámos 30 atos de bondade – dirigido a crianças e adultos – que partilhamos hoje convosco. Que tal começarmos ainda hoje a pôr em prática alguns dos atos que fazemos com menos frequência? E que tal começarmos ainda hoje a espalhar sorrisos por esse mundo?

 

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Por Susana Pedro, Professora e Fundadora da Sociedade do Bem

Imagem de capa daqui.

Publicado originalmente em Tribuna Alentejo.

Perspetivas de futuro

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Todos sabemos que a realidade complexa que nos rodeia torna-se muitas vezes um fardo pesado para os adultos, principalmente para aqueles que têm crianças a seu cargo. Muitas vezes, em prol do trabalho e da melhoria das condições financeiras, deixamos as nossas crianças entregues à escola, ao ATL, aos jogos de telemóvel, consola, internet e televisão, passando para estas o fardo pesado desse mesmo trabalho, da falta de meios económicos, das contas para pagar, da nossa precariedade e da inevitável falta de tempo para estarmos com as nossas crianças.

Cada vez mais notamos a falta de perspetiva dos jovens, tavez por ouvirem os pais/adultos lamentar-se, ou pela conjuntura atual, estes tendem a ficar desacreditados com o futuro, com a falta de oportunidades e cresce a ideia de que “estudar, para quê? Não há emprego…”.

Neste contexto de inércia, pessimismo e descrédito, urge mudar alguma coisa, pois, caso contrário, para além da falta de oportunidades começamos a detetar cada vez mais a falta de valores.

Pensar de outra forma, contrariar os sentimentos negativos e ver os problemas com outros olhos, parece fundamental numa sociedade tão exigente, onde fraquejar não será a solução.

Todos nós conseguimos fazer melhor, todos podemos lutar pelos nossos sonhos, basta apostar nos sentimentos positivos. As nossas crianças e jovens precisam olhar o futuro e somos nós adultos que temos o dever de os ajudar, fazer com que acreditem nas suas capacidades e desenvolvam as suas competências.

Sabemos que as crianças e jovens são os adultos de amanhã, então não esqueçamos de os preparar para serem bons adultos, boas pessoas, com iniciativa, criatividade e capazes de mudar o mundo.

Se motivação é a disposição interna de um organismo para efetuar determinadas ações ou facilitar a sua execução, se esta é a força geradora do comportamento, então arranjemos estratégias para motivar. A escola não pode ser a única responsável por este processo. Aprender música, dança, fazer desporto, ser voluntário, ir ao teatro, conhecer outras realidades, são oportunidades de crescimento e de desenvolvimento de capacidades/talentos que estão à disposição de todos, basta motivar e apoiar. Basta acompanhar e orientar.

Muitas vezes é dos bairros mais problemáticos e desfavorecidos socialmente que vêm os nossos mais talentosos jogadores de futebol, músicos, artistas plásticos…

Nem todos temos que estudar no ensino superior para termos perspectivas de futuro, mas todos temos que lutar por um sonho, por uma oportunidade para fazermos aquilo que gostamos e que pode fazer a diferença entre ficar na inércia e seguir em frente, rumo ao objetivo, ser autónomo, ser bom no que fazemos! E temos tantos exemplos…

Todos temos futuro…

Lucélia Rosado, Formadora e Colaboradora na Sociedade do Bem

Imagem de capa daqui.

Publicado originalmente em Tribuna Alentejo.

Queres ser meu amigo?

“O que procuramos no mundo é um lugar onde seja possível encontrar amizade e empatia”

– Evan do Carmo

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Desde o momento em que nascemos que estamos rodeados de pessoas, precisamos dos nossos pais para cuidar de nós, dos avós, dos tios, dos melhores amigos dos nossos pais, das educadoras, dos professores, entre outras pessoas responsáveis pela nossa educação.

Por outras palavras, o ser humano, desde o primeiro dia da sua vida, está em constante contacto social. O modo como interagimos com os outros e com o meio que nos circunda irá transformar o nosso desenvolvimento, seja psicológico, emocional ou social. A partir dos 7 anos de idade, a criança descentraliza-se de si e começa a adquirir competências para conseguir dar os seus primeiros passos para a terra da “Amizade”, ou seja, a empatia começa a modificar o modo como a criança encara o seu mundo interno. A criança consegue colocar-se no lugar do outro, entender o que o outro sente em determinadas situações, partilhar emoções, dar opiniões, questionar o outro, etc.

É importante referir que desde o primeiro ano de vida que a criança experiencia vários modos de socialização que ocorrem com as suas primeiras figuras de referência: os pais. É muito importante para a saúde mental da criança a descoberta de novas sensações, pessoas, emoções, lugares e novas experiências.

O bebé vai guardando esses vários episódios emocionais e sociais numa grande biblioteca de emoções e vai adquirindo cada vez mais perceções, ideias e noções do que é estar em contacto com o mundo, como deve reagir a situações específicas, como se comportar, entre outros aspetos importantes nas primeiras noções de socialização.

Mais tarde, quando a criança entra para a creche, infantário ou outro meio que lhe proporcione novas experiências… irá conhecer mais pessoas, sobretudo crianças com idades idênticas e/ou próximas e começará a pesquisar na sua biblioteca de emoções, agora já maior e mais desenvolvida, toda uma panóplia de informação, seja esta cognitiva, emocional e social, que irá servir de modelo ou guia de orientação para as suas primeiras interações com outras crianças.

Quando se priva uma criança de socializar nos seus primeiros anos de vida, para além de empobrecer a sua vida no geral, estamos a proibir-lhe a construção contínua desta biblioteca que vos falo, o que pode ser muito triste e debilitante para o desenvolvimento cognitivo e emocional da criança. A sua maturidade ficará danificada, teremos crianças com menos capacidade de adaptação, com um comportamento mais infantil, instáveis emocionalmente, menos empáticas, mais agressivas, menos altruístas e positivas.

Num mundo cada vez mais digital, com mais informação, um contacto menos personalizado e direto nas redes sociais … deparei-me com as limitações e perigos com que as crianças hoje em dia socializam e têm as suas primeiras noções do que é ser-se amigo.

Estava a conversar com uma menina com cerca de doze anos quando a surpreendi dizendo que queria ser amiga dela, ao que ela responde que não, porque ainda não lhe tinha mandado um convite de amizade no Facebook e que só a partir desse momento poderíamos ser amigas. Tirei uma folha do meu bloco de notas e escrevi a velha forma de fazer amigos: “Queres ser minha amiga? Sim, Não, Não sei”. “Agora responde com uma cruz”, disse eu com um sorriso maroto entre os lábios.

Ela agarrou na folha, riu-se e perguntou: “Para que é que escreveste isto se estávamos aqui as duas? Podes-me perguntar agora.” Depois, meio chocada com o que aconteceu diante dos seus olhos, levou a sua mão à boca e em total surpresa e disse: “AH! Isto não faz sentido, nós estamos frente a frente. Quero ser tua amiga, Joana.”

Fazer amigos e manter amizades representam fatores muito importantes para o desenvolvimento saudável de um ser humano. Estas interações entre crianças querem-se equilibradas, recíprocas e ricas de momentos de felicidade, harmonia e de partilha.

A maioria das crianças conhecem e fazem os seus amigos na escola, no bairro onde habitam ou em grupos em que estão inseridos, como por exemplo nos escuteiros, nas atividades extra-curriculares ou no centro de explicações. As atividades mais típicas entre crianças consistem em brincar, partilhar coisas como cromos, bonecos, berlindes ou jogos e ajudar quando um amigo está mais triste, quando está com dificuldades nos trabalhos de casa ou nas avaliações escolares.

Um amigo é alguém que irá proporcionar mais autoestima, bem-estar, um melhor ajustamento escolar e social, maior estabilidade emocional, desenvolvimento da empatia, maior autoconfiança, mais atitudes positivas em ambiente escolar, entre outros aspetos.

Joana Fialho, Psicóloga Clínica e colaboradora na Sociedade do Bem

Imagem de capa daqui.

Publicado originalmente em Tribuna Alentejo

Autoestima: As crianças e os seus super-poderes

“Uma criança com a dose certa de autoestima tem a melhor defesa contra todos os desafios da vida”. – Ariadne Brill

Os super-heróis são pessoas repletas de poderes, de defesas, de fraquezas, de coragem e acreditam piamente em si e na sua missão no mundo. Uma criança é quase igual a um super-herói quando a sua autoestima é adequada à sua idade e aos desafios que ela enfrenta. Reconhece as suas fraquezas e as suas qualidades, coopera com as outras crianças, é humilde, confiante e altruísta.

Uma boa autoestima permite à criança a não temer experiências novas, resolução de problemas, tomadas de decisões e de responder a desafios de forma saudável.

Quando explico às crianças o que é a autoestima costumo comparar este conceito a um autorretrato no qual não sentimos medo de desenhar os nossos defeitos ou as nossas qualidades e funciona como um rascunho, no qual podemos sempre melhorar, retocar ou eliminar imperfeições.

É natural existirem alturas em que o desenho se encontra repleto de vivacidade, brilho, pormenores, assim como existem outros momentos onde o negro e o cinzento imperam. Todos nós já passamos por este sentimento.

Quando penso na autoestima das crianças costumo imaginar que ainda estão a aprender as cores, a conhecer os tracejados de cada cor ou a aprender quais as combinações favoritas de cores e formas. Porquê? Porque este processo de identificação, a construção da personalidade tem os seus pilares aqui, na autoestima e auto-conceito das crianças.

O auto-conceito consiste na imagem que cada pessoa tem de si próprio, sendo que esta visão tem como base a experiência vivenciada e o seu auto-conhecimento. Por outras palavras, o auto-conceito pode funcionar como peças de um puzzle que vamos acrescentando à noção que temos de nós próprios e a autoestima pode ser vista enquanto os desenhos, os pormenores que cada peça tem e por fim, a imagem global que temos de nós próprios resulta da boa ou má consolidação da nossa auto-estima e auto-conceito.

Quando uma criança fala sobre autoestima refere que para a sentirem têm de se sentir amados, pertencerem a uma família e que esta os valoriza. A autoestima também se constrói mediante o encorajamento e o apoio dos pais ou agentes educativos em diversos momentos, especialmente quando a criança sente dificuldade em superar um obstáculo ou alcançar um determinado objetivo. O apoio da família é essencial para a construção de uma criança confiante e com mais autoestima.

Como podemos ajudar as crianças (1-8 anos de idade) a desenvolver estes “super-poderes”?

– Demonstre que gosta do seu/sua filho/a de uma maneira espontânea através dos afetos, palavras e gestos (deve fazê-lo com regularidade).

– Proporcione à criança um sentimento de pertença à família e à comunidade em que se encontra. Ajude-o a conhecer melhor a história da sua família, os seus familiares, estar em contacto com práticas típicas e culturais da sua família.

– Promova atividades ou hobbies do interesse do seu/sua filho/a. Não deve forçar uma atividade quando a criança não demonstra curiosidade ou gosto em praticá-la.

– Evite fazer comparações entre os seu filhos e as outras crianças.

– Permita à criança que o ajude nas diversas atividades que costuma realizar dentro ou fora de casa para que se sinta útil e capaz , como por exemplo: meter a mesa, ajudar a lavar a loiça, estender algumas peças de roupa ou fazer a sua própria cama.

– Perante situações de insucesso ou mau comportamento, procure criticar a ação e não a criança. Desta forma, a criança vai entender que agiu erradamente e compreender como deve agir posteriormente.

– Encoraje a criança a resolver problemas ou desafios. Quando o adulto está a apoiar e a ajudar a criança a resolver um determinado problema está a dar-lhe as ferramentas que precisa para conseguir responder naturalmente aos desafios e problemas que terá mais tarde, promovendo a sua autonomia e confiança.

– Celebre, demonstre interesse e orgulho pelas conquistas que a criança vai alcançando independentemente da sua escala de dificuldade. Devemos recordar os seus momentos de sucesso quando a criança está desmotivada ou com baixa auto-estima com o intuito de renovar e restaurar a sua confiança.

De uma forma sucinta, os adultos devem passar tempo de qualidade com a criança, ouvindo-a, ajudando-a a aprender novas coisas e atingir os seus objetivos. A autoestima deve ser promovida nas crianças e ao longo do seu desenvolvimento com o intuito de tornar as crianças mais fortes, mais resilientes, mais autónomas e confiantes.

Ao estarmos a valorizar este processo previne-se a base da saúde mental de qualquer indivíduo. Recordo e homenageio as palavras do Dr. António Coimbra de Matos nas suas aulas académicas: “Quando nos sentimos amados e reconhecidos pelo que somos desde tenra idade, conseguimos amar e ser amados pelos outros”.

A autoestima pode ser encarada como o melhor dos “super-poderes” de qualquer pessoa, pois permite-nos amar e sermos amados.

Joana Fialho, Psicóloga Clínica e colaboradora na Sociedade do Bem

Publicado originalmente em Tribuna Alentejo

Medo miudinho, põe-te de fininho

 

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Olheiras, mau humor matinal, horas de sono perdidas, café, pais rabugentos, saqueadores da cama perdida, crianças com mau acordar, entre outras caraterísticas dignas de uma família à beira de um ataque de nervos. Reconhecem este cenário?

Em muitas famílias o sono é um assunto complicado. Porquê? Porque não conseguem dormir uma noite inteira, fazem turnos para ver se a criança está bem ou responder a um pedido de ajuda, não descansam convenientemente, adquirem hábitos desadequados de sono, etc.

Caso não se recordem o que é o sono, recordo-vos que o sono é uma necessidade básica humana e desempenha um papel crucial no processo cognitivo e de aprendizagem (consolidação da memória) , na concentração e no raciocínio. A falta de sono pode prejudicar o estado de alerta, na resolução de problemas, na saúde em geral, no aumento de peso (obesidade), entre outros aspetos.

Qual é muitas vezes o responsável por esta azáfama noturna? O medo… esse inimigo de todas as crianças e pais que tentam passar uma noite descansada.

O medo é uma emoção básica que nos protege, nos alerta e nos faz sofrer. O medo é essencial para a sobrevivência humana. A noção de perigo é muito importante para o ser humano ter o conhecimento das suas limitações. Estamos acostumados a contactar todos os dias com o medo, algumas vezes conseguimos entendê-lo, superá-lo, desafiá-lo ou domá-lo.

Quando somos adultos o medo vive connosco e faz parte do nosso quotidiano e neutralizamo-lo (na maioria das situações), mas para uma criança o medo pode ser um elemento mesmo desestabilizador e limitante do seu dia-a-dia, porque ainda não aprenderam a entendê-lo e a controlá-lo. Além disso, a sua noção de perigo ainda é muito diminuta, pois ainda não têm uma noção apurada da realidade ou da morte, por exemplo.

Na hora de ir dormir o escuro é o melhor amigo dos papões, dos monstros debaixo da cama, das bruxas ou fantasmas que espreitam atrás da porta do armário e do que nos é desconhecido. Face ao medo a criança pede socorro às suas figuras de conforto e de segurança, o pai e a mãe, conhecidos pelas crianças como sendo guerreiros, super-heróis ou samurais na luta contra o medo.

Apesar do acordar atormentado por um grito ou um choro penoso, os pais devem ajudar as crianças nestas alturas em que o medo faz estragos nas noites preciosas de descanso de todos os pais, especialmente nas crianças dos 4 aos 5/6 anos de idade.

Então qual é a solução para as noites mal dormidas? Agarrem numa caneta e anotem as nossas sugestões:

– Proporcionar à criança uma rotina de sono, ou seja, a hora em que a criança se deita deve ser, na maioria, a mesma todos os dias;

– Deve-se respeitar (o quanto possível) as horas de sono adequadas a cada idade;

– Evitar que a criança tenha contacto e interação com dispositivos eletrónicos (televisão, computador ou jogos eletrónicos) 1 a 2 horas antes de deitar, pois podem ser estimular e alternar os padrões de sono.

– Sente-se numa ponta da cama ou sente-se numa cadeira frente à cama do seu filho e leia ou conte uma história delicada e relaxante. Evite, ao máximo, após a leitura deitar-se ao lado do seu filho e que ele adormeça. Porquê? Porque se a criança acordar pode já não estar ao lado dele e isso pode ser um elemento perturbador na consistência e qualidade do sono.

– Se a criança demonstrar interesse procure um objeto que lhe proporcione uma sensação de segurança e conforto, como por exemplo, um peluche ou um boneco. Pode também com a ajuda da criança construir um amuleto para ter ao seu lado na hora de dormir.

– Se a criança tiver entre 8 a 10 anos converse e explique-lhe o que é o medo, crie uma estratégia, reforce a criança a conseguir resolver o seu problema sozinha, uma vez que nesta idade torna-se importante a aquisição e capacitação da sua autonomia.

– Incentive a leitura de livros pedagógicos que ajudam as crianças a combater o medo, como por exemplo, “Pôr o medo a fugir”; “As aventuras da Joana contra o medo”, de Miguel Gonçalves; “Quem tem medo do escuro?” de vários autores; “O gato e o escuro”, de Mia Couto.

– Ter brincadeiras com as crianças desde tenra idade que envolvam o escuro. Pegue numa lanterna e brinque com a criança numa caça ao tesouro no escuro, por exemplo.

O medo consegue prejudicar o nosso bem-estar. Não desvalorize o medo das crianças, mas sim explique-lhe o que é o medo, entenda-o e normalize-o através da sua sensibilidade, brincadeira, conforto e segurança.

Joana Fialho, Psicóloga Clínica e colaboradora na Sociedade do Bem

Publicado originalmente em Tribuna Alentejo

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O mundo precisa de abraçar mais Julias

“O sol nasceu… Como está lindo o céu… Lá vou eu! Vem tu daí também… Aprender como se vai…. até a Rua Sésamo. Vem brincar… Traz um amigo teu… E ao chegar tu vais poder também…Ensinar como se vai até a Rua Sésamo….Até a Rua Sésamo”*

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Quantos de nós não gostávamos de ver um desenho animado ou um programa infantil que era um bem mais valioso para a nossa educação? Conhece a música? É a Rua Sésamo. Muitas crianças, e até mesmo adultos, como pais e/ou agentes educativos cresceram com as suas lições em tom de brincadeira, com imenso sentido de humor e partilha de histórias.

Este programa infantil que tem como objetivo entreter as crianças de forma pedagógica, através de várias apresentações lúdicas e alusivas à aprendizagem escolar como o alfabeto, os números, as cores, as formas e abordagem de temas variados. Além disso, estas aprendizagens também foram enriquecidas com emoções partilhadas entre as personagens, brincadeiras, o diálogo, hábitos de higiene, hábitos alimentares adequados, entre outras atividades ligadas ao quotidiano.

Ao longo deste programa que enriqueceu a infância de muita gente (inclusive a minha) personagens icónicas e marcantes como o Poupas, o Sapo Cocas, o Monstro das Bolachas, o Egas, o Becas, o Ferrão, o Gualter, o Conde de Contar, entre outras entraram nas nossas casas e bem cedo ensinaram-nos como aprender pode ser divertido e importante para a nossa vida.

Recentemente, a Rua Sésamo atualizou-se e para além das aprendizagens pedagógicas junto dos mais novos, implementou uma nova modalidade dos seus episódios denominado de Sesame Workshop: See Amazing in All Children (Workshop da Sésamo: Ver o fantástico em todas as crianças).

A See Amazing in All Children tem como objetivo mostrar “o que todas as crianças têm em comum e não as suas diferenças. Crianças com autismo partilham a alegria pelas brincadeiras, por terem amigos e fazerem parte de um grupo” (Jeanette Betancourt, Vice-presidente da Sesame Workshop). Com o intuito de alertar, sensibilizar e informar o público mais jovem e as famílias, a Rua Sésamo aumentou a sua família e criou uma nova personagem chamada Julia.

A Julia é uma menina alegre, com olhos verdes e cabelo laranja. O que é que a Julia tem de diferente para aparecer no programa? É uma criança autista e como qualquer criança gosta de brincar, ter amigos e desenvolver as suas relações interpessoais. O papel que a Julia desempenha é essencial para a informação, sensibilização sobre o autismo e sublinhar um lema: “Todas as crianças são únicas, mesmo nas suas diferenças”.

Assim, as crianças e os adultos podem entender que a criança autista apresenta-se, por vezes, irrequieta, distante perante acontecimentos, grita com facilidade, tem sensibilidade auditiva, tem um menor envolvimento com o que as rodeia, tem dificuldade em expressar as suas emoções ou a comunicar, entre outras caraterísticas inerentes ao autismo.

Este projeto valoriza a diferença como o fator único de cada criança. Jeanette Betancourt salienta que “as crianças com autismo são 5 vezes mais propensas a serem vítimas de bullying. Com uma em cada 68 crianças com autismo, é caso para dizer que é muito bullying”.

O bullying acontece muitas vezes nestes casos (infelizmente) devido ao preconceito, estigma, estereótipos, falta de sessões de sensibilização nos contextos educativos, etc. Na maioria das vezes as crianças não interagem facilmente com crianças autistas pela falta de informação, compreensão do outro e desconhecimento de como lidar com as emoções e comportamentos do outro, sobretudo quando uma criança autista tem um descontrolo emocional.

Pensem comigo: se o bullying geralmente, marca uma criança… imaginem o quão difícil irá ser a socialização das crianças com perturbação quando são vítimas de bullying. As crianças que são consideradas como diferentes têm uma maior probabilidade de serem gozadas ou ostracizadas pelos colegas.

Devido a este facto, na minha opinião, torna-se fundamental a implementação da educação inclusiva, pois só assim conseguirmos transmitir e ensinar às crianças que ser diferente não é mau, nem se é menos ou mais, simplesmente a diferença faz parte de nós. Porquê? Porque todos nós somos iguais, na medida em que somos todos seres humanos, mas cada um é uma pessoa única, com as suas caraterísticas, qualidade e defeitos.

A Rua Sésamo quis com este projeto transmitir aos mais novos isso mesmo, ou seja, apesar da Julia ser autista, é criança e, como qualquer criança, gosta de brincar, socializar e aprender, mesmo com as suas dificuldades. Através deste prisma estamos a criar crianças mais conscientes e mais empáticas na relação com o outro.

Bem-vinda, Julia.

Joana Fialho, Psicóloga Clínica e colaboradora na Sociedade do Bem

*Letra da música de abertura portuguesa da Rua Sésamo

Publicado originalmente em Tribuna Alentejo

Imagem: www.slantnews.com

Eduquem as crianças e não será necessário castigar os homens

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“Eduquem as crianças e não será necessário castigar os homens” é uma citação atribuída a Pitágoras, importante filósofo grego fundador de uma escola de pensamento, que viveu cerca de 500 anos a.C. Educar passa não só por ensinar a ter bons modos ou comportamentos que sejam socialmente aceitáveis, como também conhecimentos e competências emocionais e sociais.

Mas como podemos promover o desenvolvimento destas competências nas crianças? Todos sabemos que crianças bem-ajustadas a nível emocional e social criam mais cedo um sentimento de pertença e ligação (sentem que têm significado, que são importantes) mas têm também mais hipóteses de ter sucesso escolar. De pouco adianta tentarmos ensinar uma criança a ler e a contar se o medo que ela sente de falhar ou a falta de confiança nas suas capacidades a bloquearem. Uma criança com confiança e autoestima elevada, que sabe relacionar-se com os outros, aprende a regular o seu comportamento, a resolver conflitos ou trabalhar em equipa.

Não há mezinhas ou receitas que sirvam para todas as crianças mas há dicas que ajudam. Este artigo reúne 10 sugestões que podem desenvolver estas competências nas crianças. Vamos à primeira?

– Ensinar a reconhecer as emoções

Quando uma criança se sente frustrada, por exemplo, nem sempre ela tem um nome para atribuir a essa emoção. Ela sente-se zangada, confusa com o que sente (por exemplo quando perde um jogo), mas não sabe que é frustração que está a sentir. Somos nós, adultos, que devemos ajudar as crianças nessa tarefa de dar um nome às emoções, porque só identificando o que elas próprias sentem poderão aprender a reconhecer as emoções alheias e, consequentemente, a colocar-se no lugar dos outros. É a falta de ferramentas para compreenderem o que estão a sentir que leva muitas das vezes a birras e a situações descontroladas.

– Comunicar de uma forma eficaz

Às vezes não entendemos muito bem o que as crianças querem comunicar e, por outro lado,  elas também nem sempre compreendem o que nós lhes estamos a transmitir. Supomos que nos compreendemos mutuamente, o que nem sempre acontece. Estas barreiras de comunicação podem levar a mal entendidos. Devemos ouvir ativamente o que as crianças estão a transmitir e sermos claros quando falamos com elas.

– Envolver-se nas atividades das crianças

Não há melhor forma de nos aproximarmos das crianças do que partilhar os seus interesses. Brincar, jogar com elas, dançar, ler uma história, fazer desenhos juntos… são atividades que devemos fazer com as crianças sempre que possível. Esses momentos de partilha são oportunidades divertidas para criarmos com elas uma maior conexão.

– Mostrar que os sentimentos e necessidades das crianças são válidos

As crianças precisam de entender que os sentimentos contam, que são importantes, mas ao mesmo tempo compreender que elas não são o centro do mundo. Como elas, há muitas outras crianças que também têm desejos e direitos. Elas ocupam um lugar importante mas é preciso que aprendam a respeitar os outros.

– Encorajar as crianças a encontrarem soluções para os seus próprios problemas

Muitas vezes temos vontade de dizer às crianças como devem resolver os seus problemas. Mas quando o fazemos não as estamos a ajudar a ganhar autonomia, independência e confiança nas suas decisões. É por isso que é tão importante direcionarmos a crianças a serem elas a encontrar soluções desde cedo. Um bom método é perguntarmos o que elas acham que resolveria a situação. Decidir leva-as a compreender que têm controlo sobre as suas vidas.

– Focar o comportamento que queremos mudar e não a personalidade da criança
Quando uma criança se comporta de uma forma desadequada, devemos sempre manter o foco no comportamento que queremos mudar e não na criança em si. Não devemos dizer “És preguiçoso/a” ou “És má/mau” porque as crianças acreditam no que lhes dizemos e interiorizam as críticas. Ela não é má, o seu comportamento é que pode ser melhorado!

– Ajudar a criança a descobrir o que tem de especial
Cada criança é única e especial. Quando uma criança descobre o seu talento sente mais autoconfiança. O talento pode estar ligado à dança ou à música mas nem sempre devemos estar focados no mais óbvio. Saber cuidar de animais ou gostar de ajudar os outros permite às crianças desenvolverem competências sociais e a relacionarem-se melhor com o mundo que as rodeia.

– Incentivar o debate e a discussão
As crianças têm de praticar ouvir e falar. Estas oportunidades têm de ser dadas sempre que possível. Devemos incentivá-las a partilhar as suas histórias connosco e a tomarem decisões sobre atividades que as incluam.

– Ser um modelo
As crianças imitam os exemplos dos adultos. É importante estarmos atentos aos pormenores porque… elas estão! Uma criança aprende mais depressa a ter bons modos se palavras como “obrigado” ou “se faz favor” fizerem parte do seu dia-a-dia, da mesma forma que aprende que devemos respeitar os outros se vir que os pais ou os adultos que a rodeiam tratam os outros com respeito.

– Respeitar a criança
Respeitar a criança, os seus gostos, o seu espaço e o seu próprio ritmo, é respeitar a sua natureza. A criança está aprender aquilo que a experiência de vida nos ensina há muitos anos. Orientá-la nesse caminho, com respeito, amor e dedicação é a chave para criar um ser humano que sabe colocar-se no lugar do outro, que é altruísta e positivo perante os desafios da vida, mesmo nos momentos mais adversos.

Susana Pedro, professora e fundadora da Sociedade do Bem

Publicado originalmente em Up to Kids

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