Apertar os nossos laços com as crianças

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De acordo com o dicionário, responsabilidade diz respeito à obrigação que temos de responder pelas nossas próprias ações, assim como pelas ações dos outros. Para Emmanuel Levinas (filósofo), é o eu que suporta outrem, que dele é responsável, pois só assim poderemos apertar os nossos laços enquanto seres humanos.

Neste contexto de responsabilidade comum, surgem cada vez mais problemas que exigem a nossa atenção e compromisso. Numa sociedade exigente e complexa, cabe aos adultos transmitir aos mais novos a importância da responsabilidade para o bem estar comum.

Através do exemplo e do estabelecimento de objetivos e compromissos mútuos podemos fomentar nas crianças esta ideia de responsabilidade pelas suas próprias ações, pelas ações dos outros e por tudo aquilo que será o nosso legado para as gerações futuras.

Em casa, os adultos podem atribuir algumas tarefas simples como forma de começar a responsabilizar a criança para tarefas que dela dependerão. De acordo com a idade e maturidade, fazer a cama, arrumar os brinquedos, ajudar a arrumar a mesa antes e depois das refeições, verificar se o cão ainda tem água ou comida, se o lixo doméstico está a ser separado corretamente, podem ser exemplos de responsabilidades diárias que ajudam a criança a comprometer-se com os outros e a ser responsável.

Desde as questões mais triviais do nosso quotidiano, até à problemática da degradação do planeta, das questões de desigualdade social e discriminição ou da violência sob todas a suas formas, temos o dever de começar a responsabilizar as crianças para a distinção entre uma boa ação e uma má ação, o que pode comprometer a prática do bem e da justiça num determinado contexto.

Separar o lixo doméstico; não deitar lixo nas ruas, florestas e rios; gastar menos água; poupar na eletricidade; ajudar o colega que tem dificuldades em realizar alguma tarefa; não fazer troça de ninguém; respeitar as diferenças; ajudar os avós nas atividades diárias; ouvir os mais velhos; ser solidário com os que mais precisam, são exemplos de condutas responsáveis que podem fazer toda a diferença numa sociedade cada vez mais desigual.

Somos todos responsáveis pela educação dos mais novos e amanhã serão os mais novos os responsáveis pela educação das próximas gerações! O nosso contributo individual deve tornar-se coletivo, motivando uma rede de boas práticas que promovam uma cidadania responsável que pode mudar o mundo!

Somos todos responsáveis…

Lucélia Rosado, Formadora e Colaboradora da Sociedade do Bem

Publicado originalmente em Tribuna Alentejo

Imagem de capa daqui.

 

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Como encontrar as borboletas da motivação?

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Canetas, cadernos, trabalhos, livros, fichas, TPC´S, mochilas com ou sem rodinhas, peso nas costas, sono, aulas, estudar, dormir, explicações, atividades extracurriculares… Já está cansado/a o suficiente desta enumeração?

As crianças e jovens enfrentam todos os dias desafios constantes no que diz respeito a alcançar as metas curriculares ou as expetativas dos pais e dos seus professores. Todos os dias muitos jovens colocam-me questões, como por exemplo: “E eu? Onde estou eu? O que eu quero? Do que eu gosto?” São estas perguntas que ecoam na mente das crianças. O que sentem quando pensam sobre estes pontos de interrogação dos vossos filhos?

Coloquem um adulto a fazer algo com que eles não se identifiquem ou não consigam sentir qualquer prazer ou ganho pessoal a fazê-lo… Vai correr mal, não é? É daquelas verdades matemáticas, exatas e precisas. Agora imaginem uma criança… não vai mesmo correr bem, pois não?

As crianças dos 6 aos 12 anos e especialmente os adolescentes, encontram-se numa odisseia de sensações, de pensamentos, de ideias em construção, a descobrir se gostam mais de uma coisa em detrimento de outra, a encontrarem o seu lugar neste grande mundo. Depois os adultos, que geralmente são pais ou educadores, dizem: “Tens de tirar nota 5 a tudo”, “Tens de ser o melhor aluno da turma”, “Tens de perceber que sem estudos não vais a lado nenhum” e por aí fora. Apesar de pensarem que estão a ajudar, a fazer aquela pressão de motivação a jacto ou a agitar a consciência dos filhos… saibam que isso não vai modificar absolutamente… nada (ou se mudar chama-se Motivação Extrínseca).

É claro que podemos ir motivando os nossos filhos, mas nunca de uma forma autoritária como os exemplos que dei atrás… façam-nos refletir o porquê de estudar, o quão é importante para conseguirem alcançar os seus objetivos a curto-prazo… sim, leram bem, a curto-prazo. Se muitas vezes os próprios adultos ainda não sabem muito bem o que escolher na sua vida pessoal e profissional, temos de ser compreensivos com a construção de objetivos de vida dos nossos filhos.

Porquê? Porque se hoje gostavam de estudar para serem arquitetos daqui a algum tempo podem descobrir que o seu futuro está delineado para serem professores, por exemplo. Pelo menos de três em três meses, sensivelmente, fale com o seu filho sobre os seus interesses e descubra quais as descobertas que ele fez, seja a nível escolar, nas suas atividades extracurriculares ou noutros contextos.

Como identificar uma criança que não está motivada?

– Escolhem atividades que,na maioria das vezes, são muito facéis de concretizar;

– Precisam de muito incentivo, pela parte dos adultos, para começarem uma determinada tarefa;

– Demonstram o mínimo de esforço possivel;

– Apresentam uma atitude negativa ou apática em relação à aprendizagem e trabalho escolar;

– Desistem facilmente face uma determinada dificuldade sentida na tarefa que estão a realizar;

– Não terminam as tarefas.

Como podemos motivar as nossas crianças e jovens?

Aqui ficam algumas estratégias para ajudar na motivação face ao estudo:

– A estratégia mais importante consiste em adaptar as suas expetativas às capacidades, particularidades , gostos e competências do seu filho. Conheça-o;

– Não critique a criança. Comunique de forma calma e honesta com seu filho sobre os seus interesses, competências. Também é importante falar sobre as atividades ou tarefas onde a criança deposita um menor interesse e atenção. Compartilhe as suas opiniões tendo como ponto de partilha as atitudes e comportamentos do seu filho. Por exemplo: Se o seu filho não gosta de Matemática, tente entender o por quê de ele não gostar. Muitas vezes as crianças não sabem que gostam de uma determinada disciplina até a entenderem ou dominarem as matérias e se sentirem capazes e confiantes face a essa disciplina;

– Ajude a criança a delinear os seus objetivos ou metas. Sentem-se lado a lado, num dia mais livre e com ambiente calmo e sem pressas, comuniquem e coloque em papel os objetivos delineados pelo seu filho. Está comprovado que quando escrevermos objetivos existe um maior propensão para a realização eficaz dos mesmos. Coloque a folha dos objetivos num local visível e onde possa ser observado muitas vezes, como por exemplo, no frigorífico;

– Evite castigos ou recompensas (podem funcionar bem como motivação extrínseca, mas a longo-prazo não são rentáveis nem em manutenção ou promoção de autonomia ou autoconfiança). Incentive-o a fazer por si mesmo, pelos objetivos delineados, preferencialmente;

– Crie uma rotina de estudo saudável. Marque uma hora para a criança estudar todos os dias. A criança não deve estudar após o regresso da escola, deixe-o descansar, comer, fazer uma atividade prazerosa e depois pode estudar. O estudo deve ser feito durante 30 minutos, seguidos de uma pausa com 10 minutos. Porquê? Porque se fizer dois blocos de estudo de 30 minutos a capacidade de atenção é mantida e existe uma maior eficácia na retenção da matéria estudada;

– Quando o seu filho se mostra frustrado face a alguma determinada tarefa escolar, tente descobrir o porquê, incentive-o a ser autónomo e a não desistir face a adversidades.

Resumidamente… se o seu filho vier da escola e não vier cansado e com um sorriso nos lábios, estranhe. Espero que estas estratégias sejam úteis e agradáveis para vocês conseguirem ajudar os vossos filhos a encontrar aquelas duas borboletas simpáticas que habitam no nosso coração que se chamam “motivação” e “prazer”.

Cultivem o gosto pelo saber nas crianças.

Por Joana Fialho, Psicóloga Clínica e Colaboradora na Sociedade do Bem.

Imagem de capa daqui.

Publicado originalmente em Tribuna Alentejo.

30 atos de Bondade

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Qualquer ato de bondade, por mais pequeno que seja, pode fazer a diferença. Muitas das vezes, foram os gestos mais simples que tiveram para connosco, que acabaram por ditar grandes transformações na nossa vida. Por mudar o nosso olhar. Por moldar a pessoa que somos.

Por outro lado, pensarmos na última vez que tivemos um ato de amabilidade para com os outros, seja para com uma pessoa amiga ou para com uma pessoa estranha, tem também um impacto positivo em nós próprios. Um pouco por todo o mundo vão surgindo alguns projetos que incentivam atos de bondade nas escolas, não só por parte das crianças, como também de toda a comunidade educativa. Estas iniciativas mostram que ensinar as crianças a sentirem-se bem quando colocam um sorriso na cara de alguém, não deve ser uma tarefa exclusiva da família. Também os professores poderão ter, neste aspeto, uma intervenção mais direta e envolver a(s) sua(s) turma(s) ou até mesmo toda a escola e através de estratégias bem simples, que podem ter a duração de um ano, um mês, uma semana ou até um dia.

Os projetos Random Acts of Kindness (com representação em 310 países), Love is the New Currency (Inglaterra) ou Ripple Kindness (Austrália) partilham o objetivo de querer que as pessoas sintam o impacto que os seus gestos de bondade para com os outros podem ter nas suas próprias vidas. A começar nas crianças. “Quando colocamos um sorriso na cara de alguém, colocamos um sorriso no nosso próprio coração e são esses sentimentos positivos que nos ajudam a mudar a forma como pensamos, sentimos e comportamos” (Ripple Kindness).

Uma estratégia simples e que pode ser facilmente implementada, seja em contexto familiar ou escolar, é o Desafio da Bondade. O desafio, lançado por muitos destes projetos, consiste em entregar a cada criança (ou expor num local bem visível) uma lista com sugestões de ações simples, que podem influenciar de forma positiva a vida dos que nos rodeiam. Através deste desafio as crianças, os professores ou os pais, tios, avós… são alertados para a importância de tornarmos a vida dos outros um pouco melhor.

Elaborámos uma pesquisa e selecionámos 30 atos de bondade – dirigido a crianças e adultos – que partilhamos hoje convosco. Que tal começarmos ainda hoje a pôr em prática alguns dos atos que fazemos com menos frequência? E que tal começarmos ainda hoje a espalhar sorrisos por esse mundo?

 

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Por Susana Pedro, Professora e Fundadora da Sociedade do Bem

Imagem de capa daqui.

Publicado originalmente em Tribuna Alentejo.

Uma questão de tempos!

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No meu tempo! Quando ouvimos esta expressão pensamos sempre que está a ser referida por alguém muito mais velho do que nós. Mas também eu já a refiro muitas vezes, isto porque acho que nos últimos tempos tudo evoluiu a uma velocidade estonteante e refiro-me mesmo a tudo!

Ouvir o meu filho perguntar: “Mãe, onde está o carregador do meu tablet?”, ou “Mãe, posso tirar uma fotografia com o teu smartphone?”, ou ainda “Mãe, posso ir ouvir música no meu ipad?” Perguntas como estas nunca as fiz aos meus pais. Por um lado, consigo aceitar e até ver o lado positivo desta evolução, por outro confesso que me assusta e penso muitas vezes se o meu abraço não será trocado por uma simples conversa via skype.

Se eu vibrava com a história da Bela Adormecida e ficava entusiasmadíssima com o simples facto de saber se o príncipe chegaria a tempo de a beijar ou não, ou ficava emocionada ao ver a princesa Bela a dançar com o Monstro, ou aterrorizada ao ver as maldades da bruxa para com a Branca de Neve, hoje, o meu filho prefere ficar colado ao ecrã a ver bonecos só com pés e cabeça, azuis e cor de laranja a fazer piadas sobres vómitos, ou a ver um boneco que se designa como sendo uma esponja amarela que vive num ananás no fundo do mar e que tem como seu melhor amigo uma espécie de estrela do mar, que mora debaixo de uma pedra na rua da Concha mais propriamente na Fenda do Bikini , ou ainda, como dois patos que conduzem uma espécie de foguetão e a sua missão é entregar pães pela Patolândia… Estes patos têm como grande ídolo o Padeiro e contam piadas que só crianças desta idade parecem perceber. Enfim, tempos são tempos e tenho de ser eu, claro, a adaptar-me ao tempo dele.

No entanto, não deixa de ser interessante ver como uma criança de 5 anos coloca um DVD a funcionar ou como liga um computador portátil e diz precisar de uma pen drive para guardar as imagens de super-heróis que acabou de descobrir na sua viagem pela internet.

Se a nós pais já causa estranheza, imaginem os pobres dos avós que ficam todos baralhados com esta nova linguagem e com tanta tecnologia que lhes rouba a atenção dos seus netos. “Avô, o teu telemóvel não presta, não tem jogos nem dá para tirar fotografias!” E o meu pai, coitado, olha para mim com aquela expressão que eu tão bem conheço e sei que está a pensar: “Mas este aparelho que a minha filha me deu e me obriga a usar não serve apenas para receber e fazer chamadas para a tranquilizar de que estou bem esteja eu onde estiver?”

Como posso explicar ao meu pai que o meu filho não sabe lançar um pião? Ou que o rapaz não é muito dado a jogar ao berlinde?

Contudo, é bom ver como jogam os dois à bola no quintal, é bom ver como o meu pai finge estar a perceber o que o neto lhe está a explicar num jogo do tablet, ou como se mostra conhecedor das aventuras e das personagens que o neto descreve dos desenhos animados que vê. É bom ver o entusiamo dos dois enquanto o avô explica, com a paciência que só ele sabe ter, como funciona uma cana de pesca. É bom ver que adoram estar juntos simplesmente a passear, que mesmo distantes em algumas coisas estas idades se aproximam em tantas outras, como no amor, no companheirismo, na amizade e nem mesmo a questão das tecnologias os afasta.

Vanessa Chinelo, Professora e colaboradora na Sociedade do Bem

Imagem de capa daqui.

Publicado originalmente em Tribuna Alentejo

 

TPC – Trabalhos para (des)complicar

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Os Trabalhos Para Casa (TPC) são, para muitos pais, a maior e mais complicada tarefa de fazer com os filhos. Não pretendo, de todo, defender ou denegrir a importância dos TPC, não estou a escrever com esse propósito, até porque, enquanto mãe e professora penso conseguir visualizar os dois lados.

Se por um lado, os TPC, com conta peso e medida, podem ser uma grande mais-valia para os alunos – uma forma de complementar o seu estudo, uma forma de consolidar as competências e aprendizagens adquiridas em contexto sala de aula, uma forma de os ajudar e ensinar a estudar, uma maneira de os responsabilizar e até mesmo um meio de ligação entre casa (família) e escola. Por outro lado, quando em excesso poderão ser prejudiciais.

As crianças passam o dia todo na escola, têm um horário letivo bastante preenchido. São muitos os que depois da escola ainda têm as suas atividades de lazer, na minha opinião também bastante importantes, como o futebol, natação, ballet, entre outras. Quando chegam a casa já é ao final do dia, depois conciliar banhos, jantar e a realização dos TPC, pode tornar-se uma verdadeira dor de cabeça para todos.

Quando vão fazer os TPC já os fazem sem qualquer vontade, sem qualquer atenção, concentração ou motivação, o que faz com que estes se transformem num pesadelo e causa de muitas discussões familiares. Já para não falar da questão de muitos pais não terem habilitações académicas e conhecimentos para ajudar os filhos. Aí o drama é ainda maior. Chega a tornar-se frustrante para muitos pais não terem a capacidade de ajudar os filhos e para os filhos é quase incompreensível que os pais não os consigam ajudar nesta tarefa.

É nesse sentido que pretendo ajudar, dando algumas dicas para que a hora TPC seja um momento tranquilo para pais e filhos:

– Comecemos pelo espaço onde são realizados os TPC: Deve ser um espaço da casa com tranquilidade em que o seu filho não seja incomodado, um espaço com luz natural ou boa iluminação e deverá ser sempre o mesmo, para que a criança se comece a habituar sempre a este local;

– A criança deve estar confortável: Ter uma mesa espaçosa e uma cadeira adequada ao seu tamanho;

– Ter fácil acesso ao material que necessita para a realização dos TPC (livros, lápis, canetas, borracha, entre outros) evitando estar constantemente a levantar-se, para não se dispersar;

– Neste local não deve existir televisão, rádio ou computador (ou pelo menos não estarem ligados), para que o seu filho não se distraia;

– Tente que a criança realize os TPC sempre à mesma hora, isso facilitará os hábitos de estudo e a gestão de tempo;

– Não permita que o seu filho inicie os TPC assim chega da escola. Faça uma pausa, um pequeno lanche, deixe que a criança descanse um pouco;

– Deve estar por perto, mas tente não interferir na realização dos TPC do seu filho. Espere que seja ele a pedir a sua ajuda, poderá ser uma tarefa mais simples em que o seu filho não necessite de ajuda ou, se for uma tarefa mais complicada, incentive-o primeiro a tentar resolver sozinho e, só se ele não for capaz, deverá ajudá-lo;

– No caso de ter mais de um filho em idade escolar, não os coloque ao mesmo tempo, ou pelo menos, no mesmo espaço a realizar os TPC, pois haverá sempre tendência a conversas paralelas;

– Quando existem mais filhos e só um está na escola, não deixe que o mais novo se aperceba que o irmão está a fazer os TPC, ou então, arranje maneira de o mais novo estar entretido para não incomodar o mais velho;

– Não obrigue o seu filho a estar muito tempo a realizar os TPC. Não é, de todo produtivo. Se forem muitos ou uma tarefa muito demorada, faça uma pequena pausa, ele descansa e quando voltar irá estar mais concentrado.

São apenas dicas, que na teoria todas são viáveis, mas sei o quanto muitas vezes é difícil colocá-las em prática. Cada caso é um caso, cada família é uma família e cada criança é única. Acima de tudo tente sempre que a realização dos TPC não interfira na relação com o seu filho.

Vanessa Chinelo, Professora e colaboradora na Sociedade do Bem

 Publicado originalmente em Tribuna Alentejo

Imagem: https://criancasatortoeadireitos.files.wordpress.com/2015/08/pixbay.jpg