COMO SE CONSTRÓI UM CORAÇÃO

Não pode haver maior dom do que o de dar o próprio tempo e energia para ajudar os outros, sem esperar nada em troca.” – Nelson Mandela

Não foi há assim tanto tempo mas parece que foi.

Foi em abril que demos início ao nosso primeiro programa, numa turma de 2.º ano, com crianças entre os 7 e os 8 anos… Todos os focos estavam virados para aquele grupo de crianças e durante semanas planeámos ao detalhe as atividades e festejámos de cada vez que alguma criança dizia uma frase como: “A escola seria só paz e sossego se todos nos soubéssemos colocar no lugar dos outros…” Com elas rimos, com elas chorámos… e com elas aprendemos. Mais do que imaginámos ao princípio.

Quando convidámos o nosso primeiro Heartbuilder não sabíamos que tipo de atividade prática iria ele propor desenvolver. Foi após o primeiro contacto com as crianças que ele me perguntou: “E se estas crianças fizessem uma atividade em que pudessem perceber como é simples tornar a vida de alguém mais especial? Que quando tornamos a vida dos outros um pouco mais feliz, ficamos um pouco mais felizes também?”

Daí até desafiarmos as crianças a criarem um postal para enviarem a quem gostassem de ver um pouco mais feliz foi um passo: a avó que mora sozinha, o tio que está no hospital, a amiga que foi morar para outro país… E foram todos, em segredo – para não estragar a surpresa -, com uma grande missão: descobrir a morada onde o envelope com imagens de esperança e palavras de carinho, seria entregue.

Foi na volta do correio que chegaram as respostas que no último dia de aulas entregámos às crianças, em mão, num envelope fechado. E eram palavras de saudade que lá vinham. E eram fotografias de momentos felizes. E lembranças de tempos passados e desejos para o futuro. E eram olhos pequeninos que brilhavam enquanto todos percebiam, agora na pele, que era verdade: que pequenos gestos podem levar a grandes alegrias, principalmente quando não se espera nada em troca!

Partilho com todos os que seguem, atentos, o nosso projeto e as nossas atividades, algumas palavras e algumas imagens que por si só mostram bem “como se constrói um coração”, terminando com um especial agradecimento ao primeiro Heartbuilder da Sociedade do Bem, o Henrique Sim-Sim, que deu o melhor de si a todas estas crianças.

Olá amor.

Gostei do teu postal.

Tu sabes que eu te amo muito, és o meu príncipe.

Vai esta surpresa.

Sei que vais gostar, a fotografia tua com a prima quando eram pequenos.

Sei que a vais guardar bem.

Beijinhos meu amor.

Até às férias.

Avó Ana.

Susana Pedro, professora e fundadora da Sociedade do Bem

Publicado originalmente em Tribuna Alentejo

Imagem: Sociedade do Bem

 

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Pensar e sentir é o que nos torna humanos

“É com o coração que se vê corretamente, o essencial é invisível aos olhos.”

Antoine de Saint-Exupéry, “O principezinho

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Lembram-se de quando querem dizer uma determinada “coisa” que está mesmo na ponta da vossa língua, mas não sabem o que é? Imaginem o que é terem um determinado sentimento ou emoção no lugar dessa “coisa” e não sabem qual o nome que lhe devem atribuir.

Agora somem à situação descrita anteriormente, o facto de não saberem quais as palavras-chave associadas a esses mesmos sentimentos e emoções… Torna-se quase impossível transmitir ou explicar ao outro o que estamos a sentir. Além disso, se pensarmos profundamente nem sequer precisamos de palavras, porque a nossa expressão facial e linguagem corporal comunicam por nós.

Coloca-se outro ponto importante, que consiste em saber identificar e reconhecer as emoções através da linguagem corporal e leitura de expressões faciais… De um modo bastante simples expliquei-vos o que é a Literacia Emocional.

A Literacia Emocional consiste na capacidade de identificar e reconhecer emoções no outro ou em si mesmo. As emoções desempenham um papel essencial no equilíbrio e na saúde de todos nós. A Literacia permite aos indivíduos desenvolver uma capacidade de reflexão, crítica e empatia no que diz respeito ao mundo interno de cada um, assim como a nossa aproximação do que o outro pode ser, estar e sentir.

Mas qual é o papel da Literacia Emocional nas escolas?

Primeiros dias de aulas: mochilas, canetas, cadernos, livros, mentes sedentas por aprender, níveis de motivação díspares, medos, etc. Em cada novo ano letivo estão presentes estes elementos e outros que fazem parte do ensino escolar.

Do currículo fazem parte disciplinas como a Matemática, o Português e Estudo do Meio ao longo do Ensino Básico. A escola é o principal agente responsável pelo desenvolvimento do intelecto, seja através do raciocinio lógico-matemático, compreensão, lógica e organização visual e espacial (algumas categorias presentes no Quociente de Inteligência).

O ensino escolar cultiva a inteligência, o sucesso escolar, o alcance das metas curriculares (que cada vez mais são exigentes, tanto para os alunos como para os professores), entre outros aspetos, esquecendo-se, muitas vezes, de ensinar ou transmitir às crianças outra tipologia de inteligência (que se complementam) que é tão ou mais importante, a qual é denominada de Inteligência Emocional. Nas escolas a inteligência não se deve limitar apenas à estimulação e desenvolvimento do intelecto e ao dominio cognitivo, mas deve desenvolver também as competências socio-emocionais de cada indivíduo.

As emoções andam sempre de mãos dadas com cada um de nós, aprendem e ensinam nas escolas, passam serões em família e passeiam na comunidade. A aventura das emoções e dos seus contextos inerentes apenas começou. Sejam bem-vindos a bordo.

Joana Fialho, Psicóloga Clínica e colaboradora na Sociedade do Bem

Publicado originalmente no Tribuna Alentejo

Imagem www.zerochan.net